Histórias de Famílias Italianas no Brasil: De Lagonegro ao Brasil: a história de Biase Martorella e de uma família dividida pelo oceano ( Parte 2)

Na primeira parte, contamos a história de Biase Martorella, nascido em 5 de julho de 1859, em Lagonegro, na região da Basilicata, e sua longa trajetória entre a Itália e o Brasil.

Acompanhando a pesquisa genealógica de sua descendente, Gisela Astrid, descobrimos como Biase provavelmente emigrou para o Brasil por volta de 1882 e como, ao atravessar o oceano, seu nome passou a ser registrado como Braz Martorelli. Uma pequena mudança no nome e no sobrenome que, com o tempo, acabaria acompanhando as gerações seguintes da família.

Também contamos a história de seu primeiro casamento com Maria Filomena Colombo, brasileira de origem italiana, e o percurso de seus pais, Domenico Colombo e Filomena Isabella Amato, que deixaram a Itália rumo ao Brasil em 1868.

Dessa união nasceu uma numerosa família, marcada por viagens, retornos e novas partidas entre o Brasil e a Itália. Mas a história de Biase não terminou com a morte de Maria Filomena. Na verdade, foi justamente a partir daquele momento que um novo capítulo de sua vida começou.

Um capítulo que ampliaria ainda mais a família e faria com que, mais de um século depois, suas origens italianas continuassem vivas na memória de seus descendentes. E é exatamente daqui que retomamos a nossa história.

Após a morte de Maria Filomena, Biase se casou novamente em 28 de maio de 1917 com Maria Barbosa, nascida em Monteiro, no Estado da Paraíba, em 22 de julho de 1888. Esse segundo casamento também deu origem a uma família numerosa.

Nasceram Zullina, em 1916; Helena, em 1917; Adalberto, também em 1917; Maria do Carmo, em 1920; Eunice, em 1922; Jaime, em 1923; e Nivaldo, em 1924. As datas de nascimento de alguns dos filhos coincidem cronologicamente com a data do segundo casamento registrada nos documentos familiares. É um detalhe que faz parte da complexidade da reconstrução genealógica e que ainda mereceria novas verificações documentais.

E talvez seja justamente esse um dos aspectos mais fascinantes da pesquisa sobre as próprias origens.

Nem sempre os documentos contam uma história perfeitamente linear. Às vezes aparecem datas que parecem se contradizer, informações incompletas e detalhes que ainda precisam ser esclarecidos. Mas cada novo documento encontrado acrescenta uma peça importante a uma história que, pouco a pouco, volta a ganhar forma.

Biase morreu em 19 de julho de 1938, em Recife, no Estado de Pernambuco, aos 79 anos de idade. Foi sepultado no Cemitério de Santo Amaro. Mas sua verdadeira herança não estava apenas nos documentos que deixou ou no lugar onde foi enterrado. Sua maior herança era a família que havia construído. Sua filha Maria Florina, bisavó de Gisela, teria, por sua vez, 17 filhos.

Uma descendência enorme, através da qual o sobrenome, a memória e as origens italianas continuaram sendo transmitidos ao longo do tempo. Na família de Gisela, a ligação com a Itália sempre esteve relacionada principalmente ao mundo do comércio.

E o próprio Biase parece ter ocupado uma posição particular na sociedade local. Nos documentos, ele é lembrado como “Capitão” porque, segundo a tradição familiar e as informações reunidas durante a pesquisa, teria sido capitão da Guarda Nacional do Estado de Pernambuco.

De uma pequena cidade da Basilicata até Recife, passando por Bonito e Sapri, a vida de Biase atravessa lugares, culturas e gerações.

É uma história que começa na Itália, continua no Brasil e que hoje retorna simbolicamente às suas origens através da pesquisa genealógica de quem decidiu reconstruí-la. Essa pessoa é Gisela. Gisela é bisneta de Biase. Sua avó paterna se chamava Maria Astrid. Maria Astrid era brasileira, mas carregava consigo aquela mesma origem italiana que havia atravessado a família por várias gerações. Gisela nunca teve a oportunidade de conhecê-la.

Sua avó morreu antes de seu nascimento. E, ainda assim, o vínculo permaneceu. Seu próprio segundo nome, Astrid, foi escolhido justamente em homenagem à avó que ela nunca chegou a conhecer. Talvez esse seja um dos aspectos mais surpreendentes da genealogia.

Ela permite construir uma relação com pessoas que nunca encontramos.

Por meio de fotografias, certidões, datas e histórias familiares, pessoas que viveram há mais de um século deixam, pouco a pouco, de ser apenas nomes escritos em um documento. Elas voltam a ser pessoas. Pessoas com uma vida, sonhos, medos e escolhas.

Como conta Gisela:

“A redescoberta dessas origens italianas foi muito importante para mim: cada vez que encontro uma nova informação sobre meus antepassados, sinto que estou salvando um pequeno pedaço da minha própria história.”

Gisela tenta imaginar aquelas pessoas em seu tempo. Procura entender o que desejavam e quais foram as razões que as levaram a deixar a Itália. E é justamente aqui que surge uma pergunta para a qual, ainda hoje, não existe uma resposta definitiva.

O que levou Biase e sua família a partir?

Ainda não conhecemos todos os detalhes de sua viagem e não sabemos exatamente quais foram as razões que o fizeram deixar Lagonegro.

Mas Gisela imagina que, como muitos emigrantes italianos daquela geração, ele também estivesse em busca de uma vida melhor e de novas oportunidades.

“Penso que os Martorella foram muito corajosos, porque tiveram a coragem de ir em busca de novas oportunidades.”

Entre Gisela e Biase existem quatro gerações. Quatro gerações separam uma mulher brasileira de seu antepassado, nascido em Lagonegro, em 1859. E, mesmo assim, esse vínculo nunca desapareceu. Ele permaneceu nos nomes, nas histórias, nas fotografias e nos documentos. Permaneceu até mesmo nas brincadeiras da família. Em casa, existe uma espécie de tradição. Quando alguém fica muito agitado ou começa a falar alto, alguém exclama:

“Eu sou italiano! Eu sou um Martorella!”

E, naturalmente, a frase é dita em voz alta, com um sotaque propositalmente carregado e uma gesticulação animada, transformando a origem italiana em uma pequena cena familiar que continua atravessando as gerações. É uma brincadeira.

Mas, dentro dessa brincadeira, existe algo muito mais profundo. Existe a consciência de que uma parte da própria identidade nasceu muito longe do Brasil.

Existe um homem que partiu de Lagonegro, uma viagem da qual ainda não conhecemos todos os detalhes, uma família construída do outro lado do oceano e uma descendência que, mais de cem anos depois, continua tentando compreender as próprias origens.

Para Gisela, conhecer a história de seus antepassados significa muito mais do que simplesmente reconstruir uma árvore genealógica. Significa tentar entender quem eles eram. O que esperavam. Por que partiram.

E qual futuro imaginavam para seus filhos. Talvez seja justamente esse o sentido mais profundo das histórias dos italianos que emigraram. A viagem não termina necessariamente no momento da partida. Às vezes, ela continua por gerações. Continua nos sobrenomes que mudam. Nas fotografias guardadas. Nas histórias transmitidas de geração em geração. Nas perguntas dos descendentes. E no desejo de voltar, pelo menos uma vez, ao lugar onde tudo começou.

Gisela e sua família já decidiram que, um dia, quando tiverem o passaporte italiano, voltarão à Itália.

Pretendem passar alguns dias na terra de seus antepassados para homenagear aqueles que, mais de um século atrás, tiveram a coragem de atravessar o oceano e começar uma nova vida. Será uma viagem muito diferente daquela feita por Biase. Ele deixou a Itália sem saber o que encontraria do outro lado do oceano. Seus descendentes farão o caminho contrário. Voltarão à Itália com a consciência de tudo o que aconteceu nesse intervalo de mais de um século. Conhecerão os lugares de onde vieram seus antepassados.

Talvez caminhem pelas mesmas ruas percorridas por Biase e observem uma terra que, mesmo estando tão distante, nunca deixou completamente de fazer parte da história da família. E talvez, naquele momento, o círculo dessa longa história familiar finalmente se complete. Um homem que deixou a Basilicata em busca de um futuro. Uma família que cresceu no Brasil.

E, mais de um século depois, uma descendente que decide procurar as próprias raízes. Porque, às vezes, atravessar o oceano não significa apenas partir.

Significa também deixar para trás um caminho que, mais cedo ou mais tarde, alguém sentirá vontade de percorrer no sentido contrário.

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