Durante anos, o sonho de quem queria viver na Itália tinha endereço certo: Roma, Florença, Veneza ou Milão. Mas esse mapa está mudando. Cada vez mais estrangeiros estão trocando as cidades mais famosas por vilarejos medievais, áreas rurais e pequenas cidades onde ainda é possível experimentar aquilo que muitos chamam de verdadeira vida italiana.
A mudança acontece em um momento em que o turismo de massa pressiona algumas das maiores joias do país. Florença enfrenta ruas lotadas durante praticamente todo o ano, Veneza continua tentando conter o excesso de visitantes, Roma convive com uma demanda turística recorde e até Milão já sente os efeitos da superlotação em diversos bairros históricos.
Para quem pretende apenas passar alguns dias de férias, essas cidades continuam irresistíveis. Mas quem sonha em comprar uma casa e construir uma nova vida na Itália está começando a procurar outro tipo de destino.
Os números confirmam essa mudança de comportamento.
Segundo dados da Gate-away.com, uma das principais plataformas imobiliárias voltadas para compradores internacionais, o primeiro semestre de 2026 registrou uma distribuição muito mais ampla da procura por imóveis, rompendo a concentração que, durante anos, favoreceu apenas os destinos mais famosos.
Um dado chama especialmente a atenção: 7,4% das solicitações de compra partiram de pessoas que já estavam na Itália. Ou seja, muitos visitantes chegam ao país como turistas e acabam descobrindo, durante a viagem, um lugar onde conseguem se imaginar vivendo todos os dias.
E esse novo mapa do desejo italiano passa longe dos roteiros tradicionais.
Além do já consagrado Salento, na Puglia, e do Lago de Como, regiões como Lunigiana, Garfagnana e Maremma, na Toscana, Langhe e Monferrato, no Piemonte, Sabina, no Lácio, e as margens do Lago Trasimeno, na Úmbria, estão despertando cada vez mais interesse internacional.
São lugares onde o tempo parece correr em outro ritmo. Ruas silenciosas, patrimônio histórico preservado, paisagens naturais, sensação de segurança e uma rotina muito mais próxima daquela imagem clássica da Itália que existe no imaginário de tanta gente.
A Toscana continua liderando o ranking das regiões mais procuradas, concentrando 14% das buscas por imóveis. Logo atrás aparecem Sicília, Lombardia, Puglia e Ligúria.
Entre os municípios mais desejados estão Ostuni, conhecida como a Cidade Branca da Puglia; Noto e Caltagirone, na Sicília; Castiglione del Lago, às margens do Trasimeno; Carovigno, Tortora, San Siro, além da própria Roma.
O litoral continua sendo uma prioridade, mas de uma maneira diferente. Em vez das áreas mais movimentadas, muitos compradores procuram imóveis próximos ao mar sem abrir mão da tranquilidade. Não por acaso, 54,8% das buscas concentram-se em propriedades localizadas a até dez quilômetros da costa.
O perfil da procura também revela objetivos bastante claros. Mais de 60% dos interessados preferem apartamentos, vilas ou casas independentes que já estejam reformados ou prontos para morar.
Embora o valor médio dos imóveis pesquisados seja de cerca de 396 mil euros, sete em cada dez compradores procuram propriedades de até 250 mil euros, mostrando que o preço importa, mas não é o único fator decisivo. Espaço, contato com a natureza, qualidade de vida e bem-estar aparecem como prioridades cada vez mais fortes.
Quem está alimentando esse movimento?
Os Estados Unidos lideram com folga o número de interessados, seguidos por Reino Unido, Alemanha, França, Países Baixos, Suécia e Canadá.
Segundo Simone Rossi, cofundador da Gate-away.com, o fenômeno vai muito além da busca por imóveis mais baratos. Os compradores querem experimentar uma relação mais profunda com o território, conhecer seus ritmos, frequentar seus cafés, mercados e praças, até que uma viagem deixe de ser apenas uma lembrança e se transforme em um projeto de vida.
Talvez seja essa a maior mudança do sonho italiano.
A pergunta já não é apenas “onde passar as férias?”, mas “em qual pedaço da Itália eu conseguiria viver todos os dias?”. E, cada vez mais, a resposta está longe das multidões e perto dos pequenos vilarejos onde a Itália continua sendo, acima de tudo, vivida.

