A Fiat, na Itália, está indissociavelmente ligada ao chamado boom econômico. A empresa levou e continua levando salários para milhões de italianos e criou uma enorme cadeia de fornecedores e oportunidades para muitas pequenas empresas. A Fiat movimentou a Itália e os italianos. Quem não conhece o lendário 500 ou o 600? Mas existe também outro modelo icônico: o 147. Há poucos dias, ele completou 50 anos em terras brasileiras.
Cinquenta anos de história que também permitiram que famílias brasileiras se deslocassem, viajassem, visitassem lugares e parentes, criando histórias, boas e ruins. Em outras palavras, criando a própria vida.
No Brasil, o 147 ficou conhecido como “Cachacinha”. O motivo? Em 1979, ele se tornou o primeiro automóvel do mundo produzido em série com motor movido a etanol. O escapamento emitia um forte cheiro que lembrava a cachaça.
O 147 abriu e inaugurou um mercado novo e inovador para aquela época, conquistando milhões de brasileiros e famílias. Sua estreia aconteceu em 1976, na cidade de Ouro Preto, no estado de Minas Gerais.
Vidros laminados, motor transversal que otimizava o espaço interno e pneus radiais que proporcionavam maior eficiência nas frenagens e acelerações. Três anos depois, como mencionado anteriormente, em 1979, começaram a ser produzidos os motores a etanol, dando origem ao famoso apelido de “Cachacinha”.
Na Itália, existia o mesmo modelo, que chegou alguns anos antes do Brasil, mas com outro número. Seu nome era 127. O modelo estreou na Itália e na Europa em 1971 e foi eleito Carro do Ano em 1972.
Com motor de 903 centímetros cúbicos e tração dianteira, esse automóvel, precursor do 147, estava anos à frente de muitos carros de sua época. Suspensão independente, câmbio cuidadosamente projetado, 47 cavalos de potência e velocidade máxima de 140 km/h: o 127 reunia toda a essência do projeto e da qualidade italiana.
Foram cinco milhões de unidades vendidas na Europa e um milhão de unidades vendidas no Brasil. O modelo dominou o mercado europeu durante seis anos consecutivos.
Pio Manzù e Rodolfo Bonetto foram responsáveis pelo design, marcado por linhas modernas e, ao mesmo tempo, por um toque de elegância.
Entre esses milhões de exemplares, um deles entrou para a família Sibilla. Meu avô, Salvatore Sibilla, um autêntico napolitano, comprou um.
Era a Itália do boom econômico, do crescimento e da indústria. Todos, absolutamente todos, estavam vivendo um período de prosperidade, e o automóvel representava a conquista daquele bem-estar. O carro era branco, uma cor simples e econômica.
Eu, obviamente, nasci muitos e muitos anos depois, mas ainda me lembro daquele carro.
Na Itália, os carros não eram vendidos rapidamente. As famílias costumavam ficar com eles durante muitos e muitos anos, principalmente no sul da Itália, onde os salários eram muito mais baixos do que no norte.
Meu avô cuidava daquele carro como se fosse uma relíquia, sempre mantendo tudo em ordem. Ele ficava sempre estacionado no pequeno espaço em frente à casa, com a gata Ketty em cima do teto, como se estivesse ali para vigiá-lo.
Eu e meu irmão sentávamos dentro do carro para fingir que estávamos dirigindo. Ainda me lembro de um grande susto.
Meu avô costumava deixar as chaves na ignição. Um dia, eu as girei. O carro havia sido deixado com a primeira marcha engatada e, quando o motor ligou, o Fiat deu um solavanco para a frente, saí correndo, enquanto minha avó me repreendia, gesticulando, mas ao mesmo tempo sorrindo diante do susto que eu havia levado.
Essa era a Fiat. Era casa. Era Itália.

