Pensem que nem mesmo se conhecem com certeza as origens desse costume. Muitos turistas parecem acreditar que, na Itália, seja normal comer pão mergulhado em azeite e vinagre dentro da clássica tigelinha antes da refeição. Mas não é assim.
Tendo tido experiência como sócio de restaurantes e conhecendo o mundo da gastronomia italiana, posso dizer que esse hábito não é particularmente bem-visto.
Especialmente muitos turistas americanos acreditam que se trate de uma tradição italiana. Porém, é importante fazer uma distinção: uma coisa é participar de uma degustação em uma empresa produtora de azeite ou em um agriturismo, onde provar o produto com pão faz todo sentido. Outra é entrar em uma trattoria tradicional e pedir pão, azeite e vinagre como aperitivo, um gesto que pode ser considerado pouco apreciado.
Em muitas partes do mundo, como nos Estados Unidos ou no Brasil, é comum encontrar manteiga já sobre a mesa ou recebê-la assim que se chega ao restaurante.
Na Itália, por outro lado, pão com manteiga é principalmente um hábito doméstico, talvez para um lanche, e não um costume da restauração tradicional.
Se agora vocês pensarem: “Mas estive recentemente na Itália e me serviram pão, manteiga e azeite”, a explicação provavelmente é simples: vocês estavam em um restaurante voltado principalmente para turistas.
Nas trattorias típicas frequentadas pelos moradores locais, azeite e vinagre normalmente não ficam sobre a mesa. Eles costumam ser trazidos apenas quando solicitados.
Além disso, não reclamem se o couvert acabar deixando a conta mais alta.
O couvert é uma cobrança relacionada ao serviço, ao uso da mesa, dos utensílios e, dependendo do estabelecimento, também do pão.
Essa é uma das diferenças que mais surpreendem visitantes estrangeiros, especialmente aqueles vindos dos Estados Unidos.
A pergunta costuma surgir naturalmente: “Por que preciso pagar pelo pão se não o pedi ou nem o comi?”
A resposta está justamente no funcionamento da restauração italiana. Em muitos restaurantes, o pão faz parte do serviço oferecido à mesa, e seu custo pode estar incluído na cobrança de pão e couvert.
Nos Estados Unidos, geralmente acontece o contrário: quem deseja pão precisa pedi-lo ao garçom e, muitas vezes, ele só é servido mediante solicitação. Por isso, aquilo que para um italiano parece completamente normal pode causar estranhamento em quem visita o país pela primeira vez.
Garlic bread também não é italiano
Outro equívoco bastante comum envolve o famoso garlic bread.
Apesar da aparência semelhante, ele é uma invenção ítalo-americana. É verdade que lembra preparações tradicionais como a bruschetta ou a fettunta toscana: pão torrado, alho cru esfregado na superfície e azeite extravirgem de oliva.
Mas também aqui é preciso distinguir tradição de adaptação.
A fettunta toscana é uma receita simples e antiga, ligada à cultura camponesa, preparada para valorizar o azeite novo. Já o garlic bread que se popularizou no exterior desenvolveu características próprias e não faz parte da tradição das trattorias italianas.
A forma mais italiana de comer pão
Existe, porém, uma maneira tipicamente italiana de aproveitar o pão.
Em vez de tratá-lo como um aperitivo, ele entra em cena no final do prato para fazer a famosa scarpetta: usar um pedaço de pão para recolher o molho que ficou no prato.
É um daqueles pequenos hábitos que talvez não apareçam no cardápio, mas que tornam a refeição ainda mais prazerosa.
Por isso, fica aqui uma indicação e também um pequeno alerta.
Se vocês forem à Itália, especialmente a uma trattoria tradicional frequentada pelos moradores locais, evitem pedir pão com azeite como aperitivo. Aos olhos de muitos italianos, isso pode soar como um costume importado e pouco adequado ao contexto da refeição, ainda mais considerando o alto preço do azeite extravirgem nos últimos anos.
Além disso, pedidos especiais podem ser cobrados separadamente e aumentar o valor da conta.
Querem comer pão? Façam isso naturalmente, acompanhando a refeição ou, melhor ainda, terminando o prato com uma boa scarpetta.
Talvez essa seja justamente a atitude mais italiana de todas: esperar a comida chegar, provar cada prato e, no fim, não deixar escapar nem uma gota do molho que merece ser saboreado até a última migalha.

