Havia uma época em que uma praça podia virar teatro. Bastava uma pequena estrutura de madeira, alguns bonecos, um artista escondido atrás da cena e uma plateia disposta a acreditar. Crianças se aproximavam, adultos paravam para assistir e, durante alguns minutos, o mundo ao redor parecia desaparecer.
É essa tradição, com raízes que remontam ao século XVI na Emilia-Romagna, que chega agora a São Paulo com a companhia I Burattini della Commedia, de Modena. Entre os dias 22 e 25 de agosto, o público poderá conhecer gratuitamente uma das formas mais populares do antigo teatro italiano de bonecos.
Os Burattini são bonecos de luva manipulados diretamente pelas mãos do artista atrás de uma pequena estrutura cênica, a tradicional baracca. Durante séculos, eles ocuparam praças e espaços públicos italianos, reunindo famílias em torno de histórias marcadas pelo humor, pela improvisação e pela participação da plateia.
E talvez exista algo de especialmente bonito nessa tradição justamente porque ela pertence a uma infância que, em grande parte, já mudou.
Até algumas décadas atrás, sobretudo até os anos 1980, 1990 no máximo, era muito comum que crianças se reunissem nas praças para assistir a espetáculos populares. Não havia celulares para registrar tudo, notificações interrompendo a atenção ou telas disputando o olhar. Havia apenas a pequena baracca, a voz do artista e aqueles personagens que pareciam ganhar vida diante dos olhos.
Arlecchino, Colombina e Dottor Balanzone, personagens ligados à Commedia dell’Arte, atravessaram gerações dessa maneira. As histórias partiam de situações cotidianas, relações sociais e costumes locais, incorporando também dialetos e referências das diferentes cidades da Emilia-Romagna.
Em São Paulo, essa memória poderá ser reencontrada a partir de 22 de agosto, às 11h, no Instituto Italiano de Cultura, com Arlecchino e Colombina e la festa da ballo. O espetáculo é voltado especialmente para crianças e famílias e termina com um momento em que o público poderá conhecer os bonecos de perto e conversar com o artista sobre sua criação.
No dia 23, a companhia participa de um encontro organizado pelo Circolo Emilia-Romagna di San Paolo, no restaurante Circolo Cucina, na Avenida Ipiranga. A atividade, marcada para 12h30, apresenta personagens e referências da cultura popular da região italiana. A programação termina no dia 25 de agosto, novamente no Instituto Italiano de Cultura, com a conferência-espetáculo La parola nelle mani: il burattino come linguaggio educativo. Com tradução simultânea, o encontro discute como os bonecos podem ser utilizados como instrumento de criatividade, comunicação e educação.
Em uma época dominada pelas telas, os Burattini sobrevivem justamente por oferecer o contrário: uma experiência presencial, feita de gestos, vozes, improviso e imaginação. O encanto está ali, diante dos olhos, sem precisar ser reproduzido em uma tela. Talvez seja essa a maior força de uma tradição que atravessou tantos séculos. Antes de existir a infância conectada, havia a infância das praças — e, em algum lugar atrás de uma pequena cortina, uma mão transformava um pedaço de madeira em personagem.
Todas as atividades são gratuitas e abertas ao público, com necessidade de inscrição. O almoço do dia 23 é aberto ao público, mas o consumo no restaurante é pago.
Serviços:
Inscrição pelo link: Circolo Emilia Romagna

