Fernet-Branca: a história do amaro símbolo da Itália entre tradição, convivência e cultura gastronômica

A cultura gastronômica italiana é vasta e única no mundo. Mas, como já contamos aqui no Jornal Italia, a cultura do pós-refeição também ocupa um lugar especial entre as tradições italianas.

Na Itália, tomar um digestivo depois do almoço ou do jantar é um hábito, uma verdadeira tradição, principalmente nos fins de semana. Seja depois de uma pizza entre amigos ou de um almoço à base de carnes e peixes, ao final da refeição é quase natural chamar o garçom ou o proprietário da trattoria ou do restaurante para pedir um bom amaro.

Para os italianos, tomar um amaro não significa apenas facilitar a digestão depois de um grande jantar em família ou entre amigos no sábado à noite.
É um ritual, um momento de convivência, uma oportunidade para permanecer mais tempo à mesa, conversar sobre a refeição que acabou de terminar, falar sobre a noite que está apenas começando e trocar algumas palavras com o proprietário do restaurante, que muitas vezes acaba se tornando um amigo.

Uma das coisas de que mais sinto falta aqui no Brasil é justamente dessa tradição quando saio para almoçar ou jantar aqui em São Paulo. Ainda não encontrei restaurantes ou trattorias que a mantenham.

O motivo? Uma cultura diferente. Mas vocês sabem qual é uma das maiores diferenças em relação à Itália? Em muitos restaurantes italianos, o amaro ou o limoncello são oferecidos pela casa.

Sim, porque na Itália o almoço de domingo e o jantar de sábado são verdadeiros rituais. Muitos amigos meus, proprietários de restaurantes, deixam a garrafa de amaro sobre a mesa, porque, para eles, aquela garrafa não representa apenas faturamento ou lucro, representa amizade, gratidão e hospitalidade.

É a maneira deles dizerem:
“Fique mais um pouco conosco.”
Mas vocês sabem por que isso acontece?
Porque, na Itália, é muito comum que os próprios proprietários dos restaurantes e das trattorias recebam e atendam pessoalmente os clientes. Uma realidade que, pelo menos na minha experiência em São Paulo, é bem menos frequente.

São poucos os restaurantes e trattorias mais conhecidos em que o dono realmente está presente no salão, preferindo delegar a administração diária aos gerentes. Até mesmo muitos renomados restaurantes italianos da capital paulista, onde tive o prazer de comer muito bem, não preservam essa tradição.

Na Itália, mesmo que você entre pela primeira vez em uma trattoria onde ninguém te conhece, é comum que, depois de um bom almoço ou de um jantar especial, seja o próprio proprietário quem ofereça um amaro como forma de agradecer pela confiança depositada em seu estabelecimento., não é preciso ser amigo nem cliente antigo.
Em São Paulo, por outro lado, tudo é cobrado. Mesmo depois de um almoço ou de um jantar digno de um rei. Se quiser um digestivo, basta pedir… e pagar.

Existem inúmeros amaros italianos, e a grande maioria deles é produzida à base de ervas aromáticas.

Entre todos eles, porém, e não escondo isso de ninguém, o meu preferido continua sendo o Fernet-Branca.

O Fernet-Branca foi criado em 1845 por Bernardino Branca, em seu laboratório em Milão. Foi ali que ele desenvolveu uma preparação composta por ervas, especiarias e raízes, destinada a se tornar um dos digestivos mais famosos do mundo.
Curiosamente, essa preparação surgiu em uma época em que muitos remédios à base de ervas eram utilizados para combater doenças da época, como o cólera e a malária. Foi assim que nasceu o Fernet-Branca e, posteriormente, a histórica empresa Fratelli Branca Distillerie, protagonista de uma trajetória que já ultrapassa 180 anos.

Sua fama rapidamente se espalhou, primeiro pela Itália e depois além das fronteiras nacionais. E sabem por quê? Tanto por suas reconhecidas propriedades digestivas quanto pelas grandes ondas migratórias italianas, que levaram o Fernet-Branca para países como Brasil e Argentina.
Em 1862, Stefano Branca ingressou na empresa, contribuindo para sua expansão e lançando novos produtos. Em 1881, a Exposição Universal de Milão tornou-se uma extraordinária vitrine internacional, ajudando a consolidar ainda mais a notoriedade da marca.

Após a morte de Stefano Branca, a direção da empresa passou para sua esposa, Maria Scala. Empresária com uma visão moderna e inovadora, ela foi a primeira mulher da família Branca a assumir a presidência da companhia. Sob sua liderança, o Fernet-Branca fortaleceu ainda mais sua presença nos mercados internacionais.

O ano de 1895 marcou outro momento fundamental na história da empresa. Foi nesse período que nasceu o logotipo que acompanha a marca até os dias de hoje. Mais do que um simples logotipo, trata-se de uma verdadeira obra de arte. Criado por Leopoldo Metlicovitz, ele retrata a icônica águia sobrevoando o globo terrestre enquanto segura entre as garras uma garrafa de Fernet-Branca.

Esse símbolo rapidamente conquistou bares, cafés e restaurantes em diversas partes do mundo, tornando-se uma das marcas mais reconhecidas da indústria italiana.
Em 1965, outro membro da família Branca entrou para a história da empresa: Pierluigi Branca. Foi ele quem criou uma nova bebida, o Brancamenta, que preserva as propriedades digestivas do Fernet-Branca, acrescentando o sabor refrescante da hortelã.

Pessoalmente, continua sendo o meu favorito.

Atualmente, o Fernet-Branca é produzido com 27 ervas, raízes e especiarias provenientes de quatro continentes, enquanto sua fórmula completa permanece guardada como um dos maiores segredos industriais da Itália.

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