Quando alguém fala em culinária italiana, é comum pensar imediatamente em pizza, lasanha, espaguete ou ravioli. Mas existe um lugar na Itália onde a tradição vai muito além desses clássicos e guarda verdadeiras joias da gastronomia que poucos turistas conhecem.
Na região da Romagna, no norte do país, pedir uma “minestra“ pode surpreender qualquer visitante. Ao contrário do que o nome sugere, não se trata de uma sopa, mas da forma como os moradores se referem às massas artesanais, protagonistas absolutas da mesa local.
Ali, receitas transmitidas por gerações continuam sendo preparadas à mão, preservando formatos curiosos, ingredientes simples e histórias que atravessam séculos. Muitas dessas massas desapareceram dos restaurantes, mas ainda sobrevivem graças a cozinheiros apaixonados pela tradição.
Um dos maiores guardiões desse patrimônio é o chef Massimiliano Mussoni, do tradicional restaurante La Sangiovesa, em Santarcangelo di Romagna. Há décadas ele resgata receitas camponesas quase esquecidas e as apresenta em versões que respeitam suas origens, mas dialogam com a gastronomia contemporânea.
As pequenas joias da cozinha da Romagna
Entre as especialidades mais curiosas está uma massa granulada que, à primeira vista, lembra um cuscuz artesanal ou até uma fregola de tamanho reduzido. Preparada com farinha, ovos e, em algumas versões, queijo parmesão ralado, a massa é esfregada entre as mãos até formar pequenos grãos.
Tradicionalmente, ela era cozida em caldo, principalmente durante os meses mais frios. Hoje, alguns chefs reinventam a receita servindo-a seca, acompanhada de molhos sofisticados, como ragù de caracóis ou pesto de ervas silvestres. Há também versões extremamente cremosas finalizadas com queijo.
Outra receita rara é a Patacóc, também conhecida em algumas cidades como “frappe di polenta”. Sua principal característica está na mistura de farinha de trigo com farinha de milho, responsável pela coloração amarelada e pelo sabor marcante.
No passado, famílias aproveitavam até mesmo a polenta que sobrava das refeições para incorporá-la à massa, cortada em quadrados irregulares e servida em caldos ricos com feijão e legumes.
Hoje, alguns restaurantes reinterpretam essa tradição em pratos secos, acompanhados de ragù de linguiça e espinafre.
Poucas massas representam tão bem a Romagna quanto o Garganello. Feito com pequenos quadrados de massa de ovos enrolados sobre uma pequena tábua com ranhuras, utilizando um palito, ele ganha um formato cilíndrico com textura perfeita para absorver molhos.
Na região, costuma aparecer acompanhado do tradicional molho “alla zingara”, preparado com tomate, pancetta defumada, cogumelos, pimentões e finalizado com creme de leite ou salsa fresca.
É uma receita que traduz perfeitamente o espírito da cozinha italiana: poucos ingredientes, muito sabor e técnica artesanal.
Entre os pratos mais tradicionais da Romagna está também a chamada “Massa Suja”, cuja tradução literal significa “massa suja”.
Apesar do nome inusitado, trata-se de uma preparação extremamente delicada. Duas folhas finíssimas de massa de ovos envolvem um recheio simples de ricota, parmesão e ovos. Durante décadas foi servida quase exclusivamente em caldo, mas atualmente também aparece em versões secas, acompanhadas apenas de manteiga e sálvia, valorizando o sabor do recheio.
Pode parecer estranho imaginar uma massa recheada… sem recheio, mas ela existe.
Conhecida como Scantepreti, também recebe apelidos como “cappelletti mentirosos” ou “sorpresine”. Visualmente, lembra um cappelletto tradicional, porém é feita apenas com massa de farinha e ovos, sem qualquer recheio. A receita nasceu da simplicidade da cozinha camponesa e continua sendo servida principalmente em caldos.
Outra especialidade pouco conhecida é o Curzoli. Seu nome faz referência ao antigo cordão de cânhamo utilizado pelos trabalhadores rurais para prender as calças, já que o formato da massa lembra essas tiras.
Produzido com uma massa de ovos mais espessa do que a convencional, o Curzoli é cortado manualmente em tiras irregulares e servido com molho de tomate ou com chalotas douradas e presunto.
É um dos pratos que melhor preservam a identidade rural da Romagna.
Na Romagna, a criatividade não termina nos pratos salgados. Uma das sobremesas mais tradicionais do Carnaval é preparada em formato de tagliatelle.
A massa recebe açúcar, manteiga e raspas de limão antes de ser enrolada em um cilindro. Em seguida, é cortada em pequenas rodelas e frita inteira.
O resultado é uma espécie de “ninho” dourado, extremamente crocante e caramelizado, que prova como a tradição italiana consegue transformar ingredientes simples em receitas memoráveis.
Em um mundo onde as mesmas massas italianas dominam cardápios ao redor do planeta, a Romagna continua preservando um repertório culinário que permanece praticamente desconhecido fora da Itália.
São receitas nascidas nas cozinhas das famílias camponesas, moldadas pela necessidade de aproveitar ingredientes disponíveis e aperfeiçoadas ao longo de gerações.
Mais do que pratos típicos, essas massas representam uma parte importante da história italiana, uma tradição que resiste ao tempo graças a cozinheiros, artesãos e restaurantes que continuam mantendo vivas técnicas centenárias.
Para quem deseja conhecer a verdadeira essência da gastronomia italiana, a Romagna oferece uma viagem muito além da pizza, da lasanha e do espaguete: um mergulho em sabores autênticos que ainda emocionam quem tem a sorte de encontrá-los.

