Está localizada a mais de 9 mil quilômetros de Veneza, capital da região do Vêneto. Ainda assim, basta entrar em uma loja ou embarcar em um ônibus em Serafina Corrêa, cidade de aproximadamente 15 mil habitantes no sul do Brasil, para ouvir pessoas conversando em uma variante do dialeto vêneto.
Desde 1988, o município tornou-se um dos maiores símbolos do reconhecimento do Talian, variante brasileira do dialeto vêneto, como língua oficial ao lado do português.
Um pouco de história
O Talian é uma verdadeira língua, surgida da fusão dos dialetos falados pelos imigrantes italianos que, a partir de 1875, deixaram o Vêneto e outras regiões do norte da Itália em busca de uma vida melhor no Brasil.
Naquela época, a Itália havia sido unificada havia pouco tempo e o italiano padrão era falado por apenas uma pequena parcela da população. Amontoados nos navios, levando poucas lembranças e malas de papelão, os imigrantes desembarcaram no Brasil e fundaram colônias formadas quase exclusivamente por famílias italianas.
Dentro dessas comunidades rurais, o dialeto vêneto tornou-se a principal forma de comunicação. A grande presença de imigrantes vindos do Vêneto fez com que ele se transformasse, na prática, na língua “oficial” dessas localidades.
Do ponto de vista linguístico, trata-se de uma koiné, isto é, uma língua comum formada pela fusão de diferentes variantes dialetais que, ao longo do tempo, incorporou também elementos do português.
O resultado foi o surgimento do Talian: uma língua com gramática e estrutura lexical predominantemente vênetas, enriquecida por diversas palavras de origem portuguesa.
Voltando a Serafina Corrêa
Em 1988, Serafina Corrêa, localizada no Estado do Rio Grande do Sul e onde cerca de 90% da população é descendente de italianos, tornou-se a primeira cidade do mundo a declarar o Talian como língua oficial ao lado do português.
Em 2009, o município aprovou uma lei que formalizou e fortaleceu ainda mais o uso do Talian como língua cooficial. Além disso, todos os anos, no final de julho, a cidade promove uma semana inteira de celebrações culturais dedicadas à identidade linguística da comunidade.
No mesmo ano, o Talian foi reconhecido como patrimônio linguístico oficial dos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Em 18 de novembro de 2014, o Ministério da Cultura declarou o Talian Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, tornando-se a primeira língua minoritária do país a receber esse reconhecimento.
Segundo estimativas mais recentes, o Talian é falado por mais de 500 mil pessoas em cerca de 1.333 cidades do sul do Brasil, principalmente nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Mais de quatro milhões de pessoas o compreendem ou o utilizam parcialmente.
Emissoras de televisão locais, jornais e programas de rádio continuam transmitindo conteúdos em Talian. Algumas escolas ensinam a língua, que também é utilizada durante celebrações religiosas católicas das comunidades de origem italiana.
Pouca gente sabe que ainda existe um romance escrito integralmente em Talian e publicado na década de 1920: “Vita e storia de Nanetto Pipetta”, obra que continua sendo reeditada e comercializada, tornando-se uma importante referência da cultura e da tradição da comunidade ítalo-brasileira.
O risco de extinção
A história do Talian, porém, nem sempre foi marcada por reconhecimento.
Durante a ditadura de Getúlio Vargas, falar qualquer idioma diferente do português foi considerado ilegal.
As escolas e colônias italianas foram fechadas, enquanto jornais publicados em italiano e nos dialetos foram proibidos. Quem fosse surpreendido falando Talian poderia receber multas ou sofrer humilhações públicas. Muitos municípios também foram obrigados a alterar topônimos que faziam referência à língua e à cultura italiana.
Esse período deixou uma profunda cicatriz na memória da comunidade. Durante muitos anos, falar Talian passou a ser associado ao atraso e até mesmo à vergonha.
Com o centenário da imigração italiana no Brasil, celebrado em 1975, iniciou-se um lento processo de redescoberta e valorização da língua, culminando nos diversos reconhecimentos oficiais conquistados nas décadas seguintes.
Mais uma vez, o Talian demonstra como a memória histórica continua unindo, até os dias de hoje, a cultura italiana e a brasileira.

