Quando o bairro EUR vira Japão: a história das cerejeiras Sakura que colorem Roma de rosa

Entre as geometrias monumentais do EUR, o branco do travertino, as largas avenidas e a arquitetura racionalista que caracteriza um dos bairros mais emblemáticos da capital italiana, existe um lugar capaz de transportar os visitantes para o outro lado do mundo. Basta esperar a primavera e observar a delicada explosão de pétalas cor-de-rosa que transforma a paisagem ao redor do lago do EUR em um cenário que parece ter saído de um cartão-postal japonês.

A história desse pequeno milagre urbano começou em 1959. Em 20 de julho daquele ano, o então primeiro-ministro japonês Nobusuke Kishi presenteou Roma com cerca de 2.500 cerejeiras Sakura, principalmente da famosa variedade Yoshino. Mais do que um gesto simbólico, foi uma verdadeira mensagem de amizade entre Japão e Itália, acompanhada pelo entusiasmo dos Jogos Olímpicos que a capital italiana sediaria no ano seguinte, em 1960.

Uma parte significativa dessas árvores foi plantada às margens do lago do EUR, atualmente conhecido como Parco Centrale del Lago. Para celebrar esse vínculo especial, a avenida que acompanha o lago recebeu o nome de Passeggiata del Giappone, tornando-se ao longo do tempo um dos lugares mais encantadores da primavera romana.

O fascínio desse cenário nasce justamente do contraste. De um lado, a leveza quase poética das flores de cerejeira; do outro, a imponência dos edifícios monumentais do EUR. As pétalas refletem-se nas águas do lago enquanto pedalinhos, corredores, famílias com carrinhos de bebê e fotógrafos compartilham a mesma paisagem. É uma versão genuinamente romana do hanami, a antiga tradição japonesa que celebra a floração das cerejeiras como símbolo da beleza efêmera da vida.

Hoje restam cerca de 150 exemplares das árvores originais, mas o significado daquele presente diplomático continua vivo. Todos os anos, entre março e abril, a Passeggiata del Giappone veste-se de rosa e atrai milhares de pessoas que desejam contemplar um dos espetáculos naturais mais surpreendentes de Roma.

Ao caminhar ao longo do lago, é impossível não pensar em como um gesto realizado há mais de sessenta anos continua unindo duas culturas tão distantes. Talvez este seja o verdadeiro segredo da floração do EUR: lembrar aos romanos que, por algumas semanas a cada ano, Roma também possui um pequeno passaporte japonês. 

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