Estamos no extremo sul da Itália, mais precisamente em Gallicianò, na região da Calábria. Gallicianò faz parte do município de Condofuri e chegar até lá pelos meios tradicionais nem sempre é simples. O motivo? As vielas extremamente estreitas que caracterizam este pequeno vilarejo encravado entre as montanhas do Aspromonte.

E você sabe quantas pessoas vivem neste minúsculo povoado? Apenas 30 habitantes.

Aqui ainda se fala o grecanico, ou grego da Calábria, uma língua antiquíssima considerada atualmente em risco de extinção. Neste pequeno vilarejo existe apenas um bar, que ganha vida principalmente nos fins de semana, quando visitantes das cidades vizinhas decidem passar alguns dias em busca de paz, silêncio e tranquilidade.

Mas vamos voltar ao grecanico.

Suas origens ainda não são totalmente claras. Segundo algumas fontes, essa língua preserva influências linguísticas dos colonos da Magna Grécia que se estabeleceram no sul da Itália entre os séculos VIII e III a.C. Ela é considerada uma língua neogrega e mantém uma estrutura gramatical surpreendentemente semelhante ao grego moderno falado até hoje na Grécia.
O que mais impressiona é que essa língua nunca desapareceu completamente, nem mesmo após a chegada dos romanos.

Quem demonstrou isso foi Gerhard Rohlfs, o grande linguista alemão que dedicou sua vida ao estudo desse patrimônio cultural. Hoje, seu trabalho pode ser conhecido no Museu da Língua Greco-Calabresa de Bova, que leva seu nome.

As devastadoras enchentes das décadas de 1950 e 1970 levaram muitos moradores de localidades como Roghudi Vecchio e Gallicianò a se transferirem para Reggio Calabria e regiões vizinhas. Naquele período, o grecanico passou a ser visto como um sinal de atraso e vergonha. Muitos pais chegaram a proibir os filhos de falarem a língua, acreditando que ela poderia dificultar a busca por emprego e a integração social.

O renascimento veio graças ao trabalho de dois professores de Reggio Calabria, Franco Mosino e Domenico Minuto, que no final dos anos 1960 entraram em contato com jovens da área grecofônica. Esses jovens redescobriram o orgulho de suas raízes e, em 1970, fundaram a “La Ionica”, o primeiro círculo dedicado à preservação e divulgação da língua.

Desde então, o grecanico vive uma nova fase. Foi reconhecido como língua minoritária pela Lei 482 de 1999 e hoje representa uma das minorias linguísticas mais estudadas da Europa.

A Área Grecanica, também conhecida como Bovesia, está localizada na província de Reggio Calabria e reúne cerca de dez municípios da Cidade Metropolitana, entre eles Bova, Pentedattilo e Condofuri. Na prática, porém, o único povoado ainda totalmente helenófono é justamente Gallicianò.

Em Gallicianò a pequena praça do vilarejo, dedicada a São João Batista, padroeiro da comunidade, representa o coração da vida local. É ali que frequentemente se encontra Domenico Nucera, conhecido por todos como Mimmo “o Artista”, apelido que nasceu de sua paixão pela arquitetura e de sua profunda ligação com a localidade. Com entusiasmo, ele acompanha os visitantes pelos becos e recantos mais sugestivos, contando histórias e tradições que guardam a alma mais autêntica do lugar.

Caminhando pelas antigas ruelas, encontram-se testemunhos de um tempo que parece ter parado: um velho afiador de facas, um forno histórico ainda carregado de memória e a famosa “Fonte do Amor”.

Dessa fonte brota a água que nasce das rochas do Monte Sofia e, segundo uma tradição transmitida de geração em geração, era ali que os apaixonados marcavam seus encontros. Ainda hoje se conta que os casais, ao chegarem diante da fonte, devem trocar uma promessa ou uma declaração de amor, como forma de selar o próprio vínculo sob a proteção de uma lenda que continua viva através do tempo.

Onde comer em Gallicianò

Em um vilarejo com apenas trinta habitantes, até mesmo a oferta gastronômica reflete a dimensão íntima e autêntica do lugar. Durante muitos anos, quem chegava a Gallicianò encontrava duas referências da culinária local.

A Taverna Greca, localizada em uma belíssima varanda panorâmica com vista para o vale da Amendolea, oferecia aos visitantes a oportunidade de saborear os pratos tradicionais da região em um cenário de rara beleza, cercado pelas montanhas, pelo silêncio e pelos pores do sol que iluminam o Aspromonte.

A outra opção era a Trattoria Nizio Paleo, um restaurante de atmosfera familiar e acolhedora, onde a recepção lembrava a hospitalidade das antigas casas italianas. Ali, a gastronomia contava a história da Calábria Greca por meio de receitas transmitidas de geração em geração, preparadas com ingredientes simples e profundamente ligados ao território.

Mais do que simples restaurantes, eram verdadeiros pontos de encontro onde a comida se transformava em uma oportunidade para conhecer as tradições, a cultura e a identidade de um dos vilarejos mais fascinantes e isolados da Calábria.

Como chegar a Gallicianò

Chegar a Gallicianò significa embarcar em uma pequena viagem ao coração mais autêntico da Calábria Greca. O vilarejo, que pertence ao município de Condofuri, está localizado a cerca de 620 metros de altitude nas encostas do Aspromonte, com vista para o vale da fiumara Amendolea.

De carro saindo de Reggio Calabria

Partindo de Reggio Calabria, siga pela rodovia SS106 Jonica em direção ao sudeste por aproximadamente 40 quilômetros até Condofuri Marina. A partir daí, siga as indicações para Amendolea, Condofuri Superiore e, posteriormente, Gallicianò. A estrada sobe pelo vale da fiumara Amendolea, passando por curvas panorâmicas e belas paisagens até a localidade de Vucida, de onde se chega ao vilarejo.

Vindo do norte da Calábria (Catanzaro, Crotone ou Sibari)

Percorra a SS106 Jonica (E90) em direção a Reggio Calabria até a região de Condofuri Marina. Em seguida, pegue a estrada interna em direção a Amendolea e Gallicianò, seguindo as placas de sinalização. Os últimos quilômetros são marcados por uma estrada estreita e sinuosa que atravessa algumas das paisagens mais impressionantes da Área Grecanica.

A pé pelos caminhos do Aspromonte

Para os amantes do trekking e das caminhadas, Gallicianò também pode ser alcançada por antigas trilhas que atravessam as montanhas do Aspromonte.

Uma das mais conhecidas é a Trilha do Inglês (Sentiero dell’Inglese), inspirada na viagem realizada em 1847 pelo escritor e viajante inglês Edward Lear. O percurso atravessa a Calábria Greca e leva os visitantes até o vilarejo por antigos caminhos cercados por rios sazonais, oliveiras centenárias e paisagens montanhosas.

Outro itinerário bastante procurado parte de Bova e chega a Gallicianò por meio da trilha nº 128. O trajeto cruza a fiumara Amendolea e oferece vistas espetaculares dos povoados de tradição grega espalhados pelas montanhas do Aspromonte.

Também existem percursos que ligam Condofuri, Monte Scafi e Gallicianò, muito utilizados por caminhantes experientes que desejam explorar a Calábria Greca através de antigos terraços agrícolas, bosques e trilhas históricas.

Independentemente do meio escolhido, chegar a Gallicianò é uma experiência única. A sensação é a de entrar em um lugar onde o tempo parece ter parado, um dos últimos redutos da Itália onde ainda se preserva a antiga língua greco-calabresa e tradições transmitidas de geração em geração.

O Salento, na região da Puglia, também preserva uma importante herança linguística grega. Ali, o griko, variante próxima ao grecanico calabrês, ainda é falado em nove municípios: Calimera, Castrignano de’ Greci, Corigliano d’Otranto, Martano, Martignano, Melpignano, Soleto, Sternatia e Zollino.

O Salento, na região da Puglia, também preserva uma importante herança linguística grega. Ali, ainda se fala o griko, uma língua minoritária que mistura elementos do grego antigo, do grego bizantino e dos dialetos do sul da Itália. Embora atualmente seja utilizada por uma parcela reduzida da população, especialmente entre os mais idosos, o griko continua vivo através da música popular, das tradições locais, das escolas e de diversas iniciativas culturais.

Os principais centros da chamada Grecìa Salentina são Calimera, Castrignano de’ Greci, Corigliano d’Otranto, Martano, Martignano, Melpignano, Soleto, Sternatia e Zollino, pequenas cidades localizadas a poucos quilômetros de Lecce.

Chegar à região é relativamente simples. O aeroporto mais próximo é o de Aeroporto del Salento, em Brindisi. A partir dali, é possível seguir de carro ou trem até Lecce e explorar os povoados da Grecìa Salentina em menos de uma hora de viagem.

Além da riqueza cultural e linguística, a região é conhecida por sua gastronomia. Entre as especialidades mais tradicionais estão a frisa salentina, pão rústico servido com tomate, azeite e orégano; as orecchiette, uma das massas mais famosas da Puglia; os pratos à base de frutos do mar frescos; os queijos locais, como a burrata e o caciocavallo; e os vinhos produzidos com as uvas Negroamaro e Primitivo, símbolos da enologia do sul da Itália.

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *