O Rio de Janeiro recebe a mostra que revela a nova geração da pintura italiana


Foi inaugurada ontem no Polo Cultural ItaliaNoRio a exposição Pintura italiana hoje. Uma nova cena, iniciativa promovida pelo Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional da Itália. A mostra, que fica em cartaz até 26 de setembro, leva ao público brasileiro um retrato da nova pintura contemporânea italiana e transforma o Rio de Janeiro em mais uma parada estratégica do diálogo cultural entre Itália e Brasil.

Depois de passar por Buenos Aires e Brasília, a exposição com curadoria de Damiano Gullì (curador de Arte Contemporânea e Public Program da instituição milanesa), chega à capital fluminense como terceira etapa de uma turnê internacional concebida pela Triennale Milano, uma das mais importantes instituições culturais italianas dedicadas à arte contemporânea, ao design e à arquitetura. A proposta é apresentar ao público sul-americano uma geração de artistas italianos nascidos entre os anos 1990 e 2000, mostrando como a pintura italiana continua se reinventando entre tradição, experimentação e novas linguagens visuais.

Ao todo, a mostra reúne obras de 27 artistas e propõe uma viagem por diferentes estilos, narrativas e atmosferas visuais, entre paisagens oníricas, cenas do cotidiano, abstração, figuração e releituras contemporâneas da tradição artística italiana.

Conexão Italia-Brasil

O cônsul-geral da Itália no Rio de Janeiro, Massimiliano Iacchini, destacou durante a abertura o papel da arte como ponte cultural entre os dois países. “Esta exposição é mais uma demonstração de como a pintura pode representar valores culturais, identidade e excelência, promovendo estética, cultura e muito mais. A mostra representa um momento importante de valorização da cultura italiana contemporânea e do diálogo com o público brasileiro”.

Segundo o diplomata, a iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento das relações culturais entre Itália e Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, cidade que historicamente mantém uma forte conexão com a cultura italiana. “A iniciativa se insere de forma coerente e estratégica na missão do Consulado-Geral e do Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro, porque arte e cultura são instrumentos extraordinários para aproximar nossos povos, apoiar o caminho de internacionalização das novas gerações e reafirmar os sólidos laços históricos entre Itália e Brasil, sobretudo com a cidade do Rio de Janeiro, que conhece, dialoga e valoriza a excelência italiana”.

Iacchini também ressaltou o crescimento do Polo Cultural ItaliaNoRio como espaço permanente de criatividade, cooperação e intercâmbio. “Esta inauguração representa mais um passo fundamental na trajetória de crescimento do Polo Cultural ItaliaNoRio como centro pulsante de criatividade, cooperação e diálogo. Aqui já realizamos 11 exposições, além de feiras de vinho, eventos de design, tecnologia, educação, gastronomia e inúmeras iniciativas que celebram de forma vibrante a criatividade italiana e sua conexão com o Brasil”.

O diretor do Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro, Marco Marica, lembrou que a abertura da mostra acontece em um momento simbólico para a Itália, que celebra os 80 anos do referendo que transformou o país em uma república após a Segunda Guerra Mundial. “Hoje é um dia especial para a Itália. Celebramos os 80 anos do referendo em que os italianos, e pela primeira vez também as italianas, escolheram a república, um ano após a guerra e a queda do fascismo. Daquela votação cheia de esperança nasceu a Itália de hoje: um país livre, democrático, pluralista, inclusivo, que rejeita a guerra e defende a paz”.

Marica destacou ainda como a liberdade de pensamento e de expressão artística passou a ocupar um papel central na sociedade italiana do pós-guerra, influenciando diretamente as novas gerações de artistas. “Na Constituição italiana está consagrada a liberdade de pensamento e de expressão artística, inserida após vinte anos de regime. Foi dessa liberdade que surgiu a grande explosão artística dos anos 1950 e 1960, considerada um verdadeiro novo Renascimento italiano. É justamente nessa liberdade artística e intelectual conquistada há 80 anos que os jovens artistas presentes nesta exposição encontram inspiração”.

O diretor também ressaltou o desejo de fortalecer ainda mais o intercâmbio cultural entre Itália e Brasil por meio da arte. “Espero que esta exposição possa escrever um novo capítulo do rico diálogo cultural ítalo-brasileiro, que já possui tantos exemplos históricos, e que Itália e Brasil continuem encontrando pontos de encontro e troca na pintura, arquitetura, teatro, música e literatura”.

Ao falar sobre os artistas presentes na mostra, Marica observou como a nova geração italiana carrega o peso de uma herança artística gigantesca, mas, ao mesmo tempo, busca novas referências e linguagens globais.
“Os jovens artistas italianos carregam sobre os ombros o peso da nossa extraordinária tradição artística, da antiguidade clássica ao Renascimento, do barroco até a arte do século XX. Naturalmente, eles dialogam tanto com a arte do passado quanto com a arte contemporânea de outros países. Essa curiosidade aparece na pluralidade de estilos representados nesta pequena, mas significativa, seleção da exposição”.

O diretor citou ainda o caso simbólico da artista Giulia Mangoni, que representa de forma direta a ligação cultural entre Itália e Brasil. “É emblemático o caso da artista ítalo-carioca Giulia Mangoni, que une e expressa em sua arte, de maneira inseparável, sua identidade italiana e brasileira junto à sua trajetória artística internacional”.

A Ponte entre Italia e Brasil

A presença de Giulia Mangoni é um dos elementos mais simbólicos da exposição. A artista ítalo-carioca participou também das etapas de Buenos Aires e Brasília e, no Rio, criou uma nova instalação especialmente concebida para o espaço carioca, intitulada Cada ser sonha à sua maneira. Misturando pintura mural, pequenos quadros e paisagens imaginárias inspiradas no interior brasileiro, a obra constrói um universo visual suspenso entre sonho, memória e território.

Segundo a própria artista, o trabalho nasce como uma continuação da pesquisa desenvolvida ao longo da itinerância sul-americana da mostra. “Na terceira etapa da exposição itinerante Pintura Italiana Oggi pela América do Sul, agora no Rio de Janeiro, apresento uma nova configuração do projeto desenvolvido para esta itinerância. A instalação reúne duas pinturas de pequeno formato e um mural concebido especialmente para esta edição. As obras retratam animais em paisagens rurais e oníricas, criando um imaginário suspenso entre sonho, memória e território”.

A obra parte de uma reflexão sobre as diferentes representações da paisagem brasileira e seus imaginários narrativos, aproximando referências visuais bastante distintas. “O projeto nasce de pesquisas sobre representações da paisagem brasileira e seus imaginários narrativos, articulando referências ao faroeste, às paisagens de fronteira e à pintura de paisagem”.

Dentro dessa composição, o mural é organizado como uma espécie de ecossistema visual dividido em diferentes camadas narrativas, quase sempre marcado pela ausência humana. “O mural se organiza em quatro níveis narrativos, formando um ecossistema visual marcado pela quase ausência humana, onde animais e plantas ocupam o centro da cena”.

Giulia Mangoni também explica que a instalação dialoga simultaneamente com tradições artísticas orientais e italianas, misturando técnicas, atmosferas e referências culturais. “A composição dialoga tanto com a tradição japonesa dos rolos narrativos quanto com procedimentos do afresco italiano, inspirados nos conceitos de sinopia e giornata. Espécies nativas, vegetações do semiárido e atmosferas rurais se entrelaçam em um território imaginário que celebra a biodiversidade brasileira”.

No alto da instalação, um friso pintado funciona quase como um horizonte simbólico da obra. “No alto da instalação, um friso pintado apresenta um sol nascente e silhuetas de gado em filigrana. A presença humana aparece apenas como vestígio, através de cercas, casas e estruturas dispersas na paisagem”.

A exposição

Pintura italiana hoje procura mostrar a riqueza e a complexidade da pintura contemporânea italiana em suas múltiplas formas e interpretações. A mostra está organizada em cinco seções temáticas — Sozinhos/Juntos, História, histórias e tradição, Metafísica do cotidiano, In Between e Formas, cores, tempo e matéria — explorando temas como identidade, representação, cotidiano, memória, abstração e diálogo com a tradição clássica.

Participam da exposição, além de Giulia Mangoni, artistas como Beatrice Alici, Bea Bonafini, Roberto de Pinto, Alessandro Fogo, Emilio Gola, Cecilia Granara, Viola Leddi, Andrea Martinucci, Pietro Moretti, Davide Serpetti, Marta Spagnoli e Sofia Silva, entre outros nomes da nova cena artística italiana.

Mais do que uma exposição de pintura, o projeto transforma o Rio de Janeiro em um espaço de encontro entre duas culturas historicamente conectadas pela arte, pela imigração e pela criatividade. Em uma cidade acostumada a viver entre paisagens grandiosas, mistura cultural e intensidade visual, a nova pintura italiana encontra um cenário quase natural para dialogar com o público brasileiro.

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