Em 1902 a Itália proibiu seus próprios cidadãos de emigrar para uma nação.
Naquele ano, a Itália tomou uma decisão chocante e sem precedentes na Europa: bloqueou a emigração de seus cidadãos para um país inteiro. Não foi uma escolha política ou diplomática. Foi uma tentativa desesperada de impedir um sistema que estava transformando milhares de italianos em mão de obra explorada, endividada e sem saída.
O decreto foi assinado pelo ministro das Relações Exteriores Giulio Prinetti. O próprio decreto recebeu seu nome: Decreto Prinetti. A medida proibia a emigração assistida e financiada para o Brasil, bloqueando, na prática, as viagens pagas para camponeses italianos destinados às plantações de café.
Mas por que esse decreto foi criado, algo único em seu gênero?
Vamos voltar no tempo..
Tudo começou em 1888, quando o Brasil aboliu a escravidão. No estado de São Paulo, rico em fazendas e vivendo o auge do boom do café, o mercado precisava cada vez mais de braços para a colheita.
Através do boca a boca entre as famílias italianas que já viviam no Brasil e aquelas que permaneciam na Itália, surgiram pequenas sociedades de recrutamento que atuavam em nome dos fazendeiros. Essas sociedades decidiram pagar antecipadamente a viagem dos italianos para levá-los ao Brasil. Milhares começaram a chegar. Em pouco tempo, de milhares passaram a ser dezenas de milhares.
Entre 1887 e 1902, quase 1 milhão de italianos atravessou o Atlântico em busca de melhores condições de vida, incentivados também pelo pagamento da viagem por parte dos proprietários das plantações.
Mas onde estava a armadilha?
No momento da chegada, as famílias se deparavam com um contrato: a viagem, antecipada e paga pelos proprietários das fazendas, transformava-se em uma dívida a ser quitada com trabalho.
A moradia onde as famílias viviam? Também era uma dívida.
As ferramentas? Outra dívida.
Até mesmo a farinha e os alimentos necessários para comer e alimentar os filhos eram vendidos com preços inflacionados nos armazéns internos das fazendas. E quem era o dono desses armazéns? O próprio fazendeiro.
Essas dívidas não eram contabilizadas de maneira clara e precisa. Eram atualizadas a cada safra e, com o passar do tempo, tornavam-se praticamente impossíveis de pagar.
Enquanto a dívida não fosse quitada, não era permitido deixar a fazenda. Na prática, uma nova forma de escravidão.
Esse sistema continuou até 1902, quando o governo de Roma, vendo enormes fluxos migratórios partindo para o Brasil, começou finalmente a abrir os olhos. Durante anos, as autoridades italianas sabiam desse esquema enganoso, mas preferiram fechar os olhos.
Foram as pressões dos parentes que permaneceram na Itália, junto das cartas que relatavam condições de vida terríveis e a impossibilidade de voltar para a pátria antes de quitar as dívidas, que levaram o governo italiano a enviar um inspetor ao Brasil.
Seu nome? Adolfo Rossi.
Sua missão era observar como os italianos realmente viviam na América do Sul.
Rossi voltou para Roma com um relatório duríssimo.
“Aqueles trabalhadores são escravos”, escreveu.
Segundo o relatório, estava surgindo uma nova forma de escravidão: dívidas impossíveis de pagar, vínculos contratuais, isolamento geográfico e poder absoluto dos proprietários rurais.
O relatório chegou às mãos do ministro Prinetti, que decidiu decretar a nova lei.
Em 1902, pela primeira vez na história italiana, Roma decidiu impor uma proibição à emigração.
Ficava proibido emigrar para o Brasil com viagens pagas pelos fazendeiros. Ficavam proibidos também os grupos de recrutamento sem garantias. Apenas a emigração espontânea, de livre escolha e com verificação consular era aceita.
Os efeitos do decreto foram imediatos.
Nos quinze anos anteriores ao decreto, entre 1887 e 1902, quase 1 milhão de italianos partiu para o Brasil. Após o decreto, entre 1902 e 1920, partiram apenas cerca de 306 mil pessoas. Uma queda total nos fluxos migratórios.
A Itália foi um país de emigrantes, mas houve também um momento histórico em que tentou frear essas partidas, tanto para proteger seus cidadãos quanto para evitar uma crise interna de trabalhadores agrícolas.
Uma nova onda migratória surgiu após a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, mas, nesse caso, tratava-se de partidas espontâneas, motivadas pelas consequências da guerra e da pobreza, e não mais pelos incentivos econômicos dos fazendeiros.
Foi assim que começaram os primeiros grandes laços entre Brasil e Itália.

