qua. maio 13th, 2026

O rooftop espetacular em Roma do chef estrelado Enrico Bartolini

Há um momento, nas cidades acostumadas demais a se contar, em que deixam de se espelhar e começam a ser observadas de cima. Não é uma mudança de perspectiva: é uma mudança de poder. Roma, que vive de camadas e memória, hoje se entrega a um olhar vertical que não lhe pertence. Acontece sobre o Palazzo Marignoli, onde o ruído das obras deu lugar a algo mais perigoso: uma visão.

Em 5 de maio não abre simplesmente um restaurante, abre-se uma fissura. De um lado, a Roma que se protege atrás da tradição; do outro, aquela que decide usá-la como alavanca. O nome é QUID Unique Italian Dining e por trás não há apenas um projeto ambicioso, mas a assinatura mais pesada possível: Enrico Bartolini, o chef mais estrelado da Itália. Não é um detalhe. É uma declaração de força.

Bartolini chega onde até agora nunca tinha estado de fato: Roma não como etapa, mas como território a ser ocupado. Depois de construir um império gastronômico feito de identidades múltiplas, mas coerentes, escolhe a capital como novo campo de tensão. Não exporta um formato. Exporta um método. Precisão, controle, visão. E sobretudo uma capacidade rara: adaptar-se sem perder centralidade.

E faz isso dentro de um edifício que já é uma narrativa comprimida de poder, finança, arquitetura e transformação urbana. O Palazzo Marignoli não é apenas um recipiente: é um dispositivo. A Allianz o tomou, esvaziou, repensou e devolveu à cidade como um organismo híbrido. Escritórios, varejo de alto nível, arte. Agora também alta gastronomia. Não é acaso, é modelo. E Bartolini, nesse esquema, não é hóspede: é o catalisador final.

O QUID torna-se assim algo mais do que um restaurante. É um ponto de convergência entre capital econômico e capital simbólico. Entre aquilo que Roma foi e aquilo que começa, lentamente, a se tornar.

Na cozinha não há um intérprete da romanidade. Há Juan Camilo Quintero. Colombiano. Formado na Itália, sim, mas não domesticado. Um chef que Bartolini conhece, constrói e decide levar consigo neste momento delicado. Não é uma delegação. É uma escolha de confiança e continuidade estratégica. Quintero não replica Bartolini: interpreta seu pensamento, o expande, o tensiona.

“A varanda é absurda, você tem uma vista de 360 graus: de um lado São Pedro, do outro a Piazza di Spagna, depois o Parlamento.” Não é só entusiasmo. É consciência do espaço. Porque o espaço, aqui, é o verdadeiro luxo. Mil e quinhentos metros quadrados suspensos sobre uma cidade que nunca foi pensada para ser vista assim. Não é cenografia, é domínio visual. E isso muda tudo.

Por dentro, o projeto arquitetônico não busca efeito. Travertino, latão, superfícies materiais. Continuidade. Por fora, a cidade. No meio, uma promessa: você pode subir apenas para um drink ou atravessar uma experiência completa. Não é só gastronomia, é construção de tempo. Antes, durante, depois. Até a galeria vertical obras entre os séculos XIX e XX faz parte da narrativa. Comer torna-se um ato dentro de uma sequência cultural. Nada neutro.

E então vem a cozinha. Que nunca é inocente.

Aqui se percebe a mão de Bartolini, mesmo quando ele não está fisicamente na cozinha. Não nas receitas, mas na estrutura mental. Liberdade controlada. Simplicidade aparente que esconde construção milimétrica. Um fine dining que recusa a rigidez sem perder autoridade. É sua marca mais reconhecível: tirar peso sem perder profundidade.

Quintero rejeita rótulos com uma leveza que, na verdade, é estratégia. América do Sul, técnica italiana, experiência internacional. Mas, acima de tudo, liberdade. Liberdade de não endurecer o fine dining como um ritual codificado. Você pode comer dois pratos ou dez. Pode escolher ou se entregar. Parece acessibilidade, é controle narrativo.

O menu se move como uma dramaturgia: vegetal, mar, carne, doce. Mas não é a sequência que impressiona. É a tensão interna. Os aspargos com cítricos e flor de laranjeira falam uma língua que não é local, mas também não é exótica. O risoto com javali, azeitonas e pinho constrói uma ponte entre memória e desvio. A triglia com pak choi e amendoim rompe sem pedir desculpas.

E então ela chega. A escolha que define tudo.

“Sem carbonara, apostamos na nossa gricia.”

Não é provocação. É posicionamento. Em uma cidade onde a carbonara virou quase uma obrigação identitária, escolher a gricia significa escapar da retórica mais fácil. Significa buscar um ponto de equilíbrio entre reconhecimento e margem de manobra.

“O verdadeiro desafio não é inovar. É decidir o que não tocar.”

A “Gricia Quid” não é um exercício de estilo. É um experimento de precisão. Massa feita em casa em formato de Q, cozimento por absorção em água aromatizada, equilíbrio entre diferentes pecorinos para evitar a agressividade do romano puro. Pimenta preta tostada, sem virtuosismos desnecessários. E então o detalhe que muda o eixo: a trufa, variável, sazonal. Não invade, sugere.

E sobretudo o gesto. A panela de cobre no centro da mesa. O compartilhamento. O pão para raspar o prato. Um retorno aparente à casa, dentro de um dos contextos mais construídos da cidade.

“Muda a aparência, mas na essência é uma verdadeira gricia.”

É aqui que o projeto se revela de fato. Não na espetacularidade da varanda, nem na assinatura de Bartolini.

Mas no fato de que Bartolini, pela primeira vez em Roma, não tenta se impor sobre a cidade. Ele tenta entrar por um ângulo lateral. E talvez seja exatamente esse o gesto mais radical.

E então a pergunta não é se o QUID se tornará um dos novos endereços da alta gastronomia romana.

A pergunta é outra, mais incômoda: até que ponto Roma está disposta a reconhecer uma autoridade que não nasce dentro dela?

Informações úteis

QUID Unique Italian Dining
Piazza San Silvestro, 8 Roma

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