seg. maio 11th, 2026

Cada vez mais caros: ter carro pesa no bolso tanto na Itália quanto no Brasil

Ter carro continua sendo quase uma necessidade tanto na Itália quanto no Brasil. Mas manter um veículo virou um desafio financeiro crescente, pressionando famílias, mudando hábitos de consumo e até alterando a relação das pessoas com a mobilidade urbana.

Na Itália, o tema voltou ao centro do debate após novos estudos mostrarem que possuir um automóvel custa hoje muito mais do que há dez anos. Segundo dados publicados pelo jornal italiano Il Sole 24 Ore, o preço médio dos carros no país saltou de cerca de 19 mil para mais de 30 mil euros em apenas uma década, um aumento superior a 50%.

O impacto não termina na concessionária. Entre combustível, seguro, impostos, revisões e manutenção, uma família italiana pode gastar perto de 5 mil euros por ano apenas para manter o carro rodando. Em cidades como Roma e Nápoles, os custos são ainda mais elevados por causa do seguro e da pressão do trânsito urbano.

O fenômeno ajuda a explicar uma mudança importante no comportamento dos italianos. Muitas famílias passaram a adiar a compra de veículos novos, manter o mesmo carro por mais tempo ou migrar para o mercado de usados. Cresce também o aluguel de longo prazo, alternativa que vem ganhando espaço principalmente entre jovens e moradores das grandes cidades.

O cenário brasileiro segue uma lógica parecida. Apesar das diferenças econômicas entre os dois países, ter carro também ficou significativamente mais caro no Brasil nos últimos anos.

Segundo levantamentos publicados por portais especializados brasileiros, como Zul Digital e Meu Bolso em Dia, manter um carro popular no Brasil pode custar entre R$ 20 mil e R$ 27 mil por ano, considerando combustível, IPVA, seguro, manutenção, estacionamento e depreciação do veículo.

Os preços dos automóveis também dispararam. Um carro popular que antes era vendido abaixo de R$ 30 mil hoje frequentemente supera os R$ 80 mil ou até R$ 90 mil. Modelos de entrada como Fiat Mobi, Renault Kwid ou Hyundai HB20 já se aproximam de valores que, até poucos anos atrás, eram associados a veículos médios.

Existe ainda outro paralelo importante entre os dois países: o preço dos veículos cresceu muito mais rápido do que a renda média da população. Isso faz com que o automóvel, antes visto como símbolo clássico de ascensão da classe média, passe gradualmente a ser tratado como um bem cada vez mais difícil de sustentar.

A comparação histórica ajuda a entender o tamanho da mudança.
Nos anos 1970, tanto Itália quanto Brasil viveram a consolidação do carro popular como símbolo de mobilidade de massa. Na Itália, modelos como Fiat 500 e Fiat 127 representavam o sonho da classe média trabalhadora durante o chamado “milagre econômico italiano”. Um Fiat 127 no início da década custava algo equivalente a cerca de 10 a 12 salários anuais médios de um operário industrial.

No Brasil, fenômeno parecido acontecia com Fusca, Fiat 147 e, alguns anos depois, Gol. O Fusca tornou-se praticamente um ícone nacional. Em muitos casos, um trabalhador precisava de aproximadamente 18 a 24 salários mensais para comprar um carro popular novo, dependendo do período e da inflação.

Hoje o cenário mudou radicalmente. Na Itália, um carro compacto de entrada frequentemente supera 20 salários médios líquidos mensais. No Brasil, a situação é ainda mais pesada: dependendo do modelo e da renda considerada, um automóvel popular pode representar mais de 60 salários mínimos.

Ao mesmo tempo, tanto Itália quanto Brasil continuam extremamente dependentes do transporte individual. Mesmo com crescimento de aplicativos, bicicletas, micromobilidade e transporte compartilhado, o carro segue central na vida cotidiana, especialmente fora dos grandes centros urbanos.

Na Itália, onde o automóvel faz parte da própria identidade industrial do país desde os tempos da Fiat e do boom econômico do pós-guerra, essa mudança tem também um peso simbólico. Já no Brasil, o carro ainda representa independência, status e segurança diante das limitações do transporte público em muitas cidades.

O resultado é um paradoxo moderno: em dois países apaixonados por automóveis, dirigir continua sendo essencial, mas possuir um carro nunca foi tão caro.

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