Existem vinhos que correm atrás do mercado. E depois existem aqueles que o ignoram, deixando que seja o tempo a fazer o trabalho sujo. O Brunello da Biondi Santi pertence claramente a esta segunda categoria. Não corre. Não se dobra. Espera.
E hoje, numa época obcecada pela velocidade, essa escolha não é apenas enológica. É política.
Em Montalcino, na Tenuta Greppo, a espera nunca foi um defeito. Sempre foi uma forma de poder. Quando Franco Biondi Santi repetia “espere, espere mais”, não estava falando apenas de vinho. Estava defendendo uma ideia de mundo em que a qualidade não se negocia com a urgência.
Hoje, essa frase volta a ganhar vida, mas num contexto completamente diferente. Desde 2017, com a entrada do grupo francês EPI Group, a histórica casa do Brunello iniciou uma transformação silenciosa. Não uma revolução, mas uma tensão constante entre identidade e modernidade.
O rosto dessa transição é Giampiero Bertolini. Um gestor, sim. Mas com uma intuição contrária à corrente: desacelerar.
Não é marketing. É estrutura.
Alongar o tempo de envelhecimento significa imobilizar capital, reduzir rotação, aceitar margens mais lentas. É uma escolha que poucos podem se permitir. E menos ainda têm coragem de fazer. Seis meses a mais para o Rosso di Montalcino. Um ano a mais para o Brunello. Dois anos para a Riserva. Num setor onde tudo empurra para a aceleração, aqui decidiu-se tirar o pé do acelerador. E o resultado não está apenas na taça. Está na percepção.
O Brunello 2020 surge com uma tensão diferente: menos austero, mais legível, quase provocador para quem está acostumado a vinhos que exigem décadas. A Riserva 2019, por outro lado, permanece um exercício de precisão absoluta. Não busca consenso. Impõe.
No meio, o Rosso di Montalcino 2023 torna-se a verdadeira jogada estratégica. Preço aumentado, de 45 para 75 euros. Um risco? Não. Uma declaração. Porque o valor não se comunica baixando o preço. Impõe-se elevando-o quando há substância por trás. E o mercado, surpreendentemente, respondeu.
Aqui, o ponto deixa de ser o vinho e passa a ser sistema. Porque o que a Biondi Santi está fazendo é redefinir o posicionamento cultural do próprio Brunello. Não mais apenas símbolo de longevidade, mas um objeto narrativo contemporâneo.
Não por acaso nasce “A Voz de Biondi Santi”. A cada ano, uma palavra-chave. Neste ano: Gerações. Jovens autores, contos, audiolivros. O vinho deixa de ser apenas produto e torna-se linguagem. E depois vem a terra. Porque nenhuma narrativa se sustenta sem base agrícola.
Viticultura regenerativa. Replantios. Seleção mais rigorosa das uvas. 65% das barricas substituídas. As antigas barricas do século XIX deixadas de lado um gesto quase sacrílego, se não fosse necessário. Novas salas de fermentação. Mais controle. Menos nostalgia. É aqui que se joga a partida real: manter o estilo sem virar museu.
Porque o verdadeiro risco, para uma marca como Biondi Santi, não é mudar. É permanecer imóvel enquanto o mundo muda ao redor. E então a pergunta torna-se inevitável: pode um vinho histórico sobreviver sem trair a si mesmo? Talvez a resposta esteja justamente nesse “espere” que continua a ecoar entre as barricas. Mas hoje já não é apenas um convite à paciência. É uma estratégia. E, num mercado que consome tudo rápido demais, talvez seja a última forma de luxo que ainda resta.

