qui. fev 26th, 2026

O vilarejo italiano que desafia o tempo e coleciona centenários

Existem lugares onde o tempo simplesmente passa. E existem outros onde o tempo parece se alongar, se dilatar, perder a pressa. Em um desses lugares, na costa do Cilento, a vida não é contada em anos, mas em estações que se acumulam com naturalidade, até chegarem aos cem. E além.

Acciaroli não é um vilarejo que ostenta seu recorde. Não há placas comemorativas, não se vendem elixires milagrosos, não se promete imortalidade. Ainda assim, o lugar acabou atraindo a atenção de médicos, biólogos e pesquisadores do mundo inteiro por um motivo simples e quase desconcertante: aqui, viver cem anos não é uma exceção estatística, mas uma possibilidade concreta. Segundo diferentes investigações jornalísticas e estudos observacionais, a porcentagem de centenários está entre as mais altas da Europa. Um número que, em qualquer outro lugar, pareceria um erro. Aqui, não.

Acciaroli é uma fração do município de Pollica, voltada para um mar que não faz barulho desnecessário. Casas claras, vielas que cheiram a sal e alecrim, um pequeno porto que lembra que este sempre foi um vilarejo de pescadores. A cena parece imóvel apenas à primeira vista. Na realidade, tudo se move em um ritmo antigo, calibrado, humano.

É justamente daqui que nasce a pergunta que intriga quem estuda a longevidade: por que exatamente aqui?

Não existe uma resposta única e talvez esse seja o ponto central. A longevidade de Acciaroli não é um segredo a ser revelado, mas um equilíbrio a ser observado. A dieta mediterrânea vem primeiro, não como moda ou conceito abstrato, mas como prática diária: azeite de oliva de verdade, leguminosas, peixe simples, verduras da estação, pão sem excessos. Depois vem o alecrim, que cresce por toda parte, usado sem parcimônia e estudado por seus possíveis efeitos benéficos sobre o sistema circulatório. Mas reduzir tudo ao que se come seria confortável e errado.

Aqui ainda se caminha muito, mesmo sem chamar isso de atividade física. Aqui o estresse não é inexistente, mas não domina a vida. Aqui a relação com o tempo não é conflituosa: não se corre para ganhá-lo, nem se teme quando ele passa. A genética conta, sem dúvida. O ar limpo também. Mas pesa sobretudo um estilo de vida que não foi pensado para viver mais, e sim para viver melhor. O resultado, quase por acaso, é a longevidade.

Não surpreende que os centenários de Acciaroli, além de numerosos, apresentem frequentemente condições de saúde impressionantes. Baixos índices de doenças cardiovasculares, incidência reduzida de patologias neurodegenerativas, lucidez que resiste ao passar dos anos. É por isso que o vilarejo se tornou um laboratório a céu aberto para a ciência internacional, visitado e estudado sem jamais perder sua normalidade.

Acciaroli, porém, não é apenas um caso de estudo. É também um lugar que preserva uma beleza concreta, cotidiana. As igrejas, como Santa Maria e Annunziata, contam uma devoção silenciosa. Os restaurantes à beira-mar continuam cozinhando como sempre se fez, sem transformar a tradição em espetáculo. E pouco distante, em Pioppi, viveu e trabalhou Ancel Keys, o cientista que, nos anos 1950, deu nome e base científica à dieta mediterrânea um estilo alimentar que aqui nunca precisou de definições.

O vilarejo está inserido no Parque Nacional do Cilento e Vallo di Diano, área reconhecida pela UNESCO como reserva da biosfera. Praias com Bandeira Azul, trechos de costa ainda intocados, pinheirais e trilhas que sobem em direção ao interior. Uma paisagem que não serve de cenário, mas faz parte da vida cotidiana. Segundo os moradores, é justamente essa relação contínua e não mediada com a natureza que faz a diferença.

Acciaroli, no fim das contas, não promete nada. Não vende a ideia de vida eterna, nem de felicidade garantida. Oferece algo mais raro: um modelo possível, imperfeito, humano. Um lugar que demonstra que, quando o tempo deixa de ser inimigo, chegar aos cem anos não é um milagre. É uma consequência.

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