O Campanário de São Marcos, com 98,6 metros de altura, é formado por uma estrutura de tijolos de planta quadrada, com lados de 12 metros e altura de 53,75 metros. Sobre ela se erguem a torre dos sinos e a cúspide, coroada pela estátua do Arcanjo Gabriel.
A história do Campanário de São Marcos começa em 888, quando o doge Pietro Tribuno ordena a construção de uma torre de vigia para defender o centro político da cidade. Essa primeira estrutura, provavelmente considerada insuficiente para a finalidade, é demolida em 910 e substituída por uma torre maior, com dupla função: farol para os navegantes e campanário de Veneza.
As fundações são reforçadas com a compactação do terreno por meio de estacas de 26 centímetros de diâmetro e 1,5 metro de comprimento, cravadas até a recusa. Sobre elas é colocado um duplo tablado de carvalho, com 12 centímetros de espessura por camada, encimado por uma base de pedra de 12 metros de lado e 5 metros de altura. É sobre essas fundações que o Campanário se desenvolve e cresce, resistindo por quase mil anos.
A maioria dos leitores não sabe que, em 1902, o Campanário de São Marcos, em Veneza, desabou. Era precisamente 14 de julho de 1902. O colapso aconteceu sobre si mesmo: em poucos segundos, uma queda estrutural reduziu a escombros quase mil anos de história.
A causa foi um conjunto de danos estruturais, rachaduras negligenciadas ao longo do tempo e intervenções realizadas de forma inadequada durante os anos. Não houve vítimas: pouco antes do desabamento, alguns detritos começaram a cair, alertando as autoridades e permitindo a evacuação imediata da área ao redor do campanário.
Os venezianos o chamavam de “paron de casa”, ou seja, “dono da casa” no dialeto vêneto.
O antigo campanário ruiu sobre si mesmo, destruindo a Loggetta de Sansovino e danificando parcialmente o edifício das Procuratie Nuove. O anjo dourado que coroava o campanário caiu de bruços em frente à porta principal da Basílica de São Marcos. Falou-se em milagre, pois não houve mortos nem feridos.
Naquela mesma noite, o Conselho Municipal, liderado pelo prefeito Filippo Grimani, aprovou a reconstrução do Campanário com o lema: “Com’era, dov’era” “como era, onde estava”. Um forte senso de dever e de memória uniu as duas facções políticas.
Sob o enorme monte de escombros, tijolos e areia, foram encontradas danificadas as estátuas de bronze de Apolo, Minerva e Mercúrio, obras de Sansovino, além dos cinco sinos e do Arcanjo Gabriel, que até então brilhava a cem metros de altura. Apenas o sino Marangona permaneceu intacto: é ele que, todas as noites à meia-noite, espalha pela cidade seus característicos toques.
Com o início da reconstrução do campanário, o bronzeiro vicentino Emanuele Munaretti recebeu a tarefa de restaurar as estátuas e concluiu o trabalho com sucesso. Após sua morte, a fundição encerrou as atividades; porém, o escultor vicentino Guerrino Lovato, também conhecido por ter realizado os modelos de argila para o novo Teatro La Fenice, evitou que ela fosse abandonada. Em 1998, ele adquiriu a fundição, juntamente com os três andares repletos de materiais preservados em seu interior. As operações de reconstrução e reedificação foram longas e muito complexas. As obras duraram dez anos.
Tijolo por tijolo: foi exatamente assim. A produção dos tijolos foi confiada à olaria Pizzi, de Graminazzo, uma localidade da província de Parma.
Foram produzidos cerca de 203 mil tijolos de argila, misturada com a areia retirada do leito do rio Pó. O transporte acontecia diretamente em barcaças que, seguindo o curso do rio Pó, chegavam à lagoa veneziana.
A maestria na produção dos tijolos fez com que não se percebesse nenhuma diferença em relação aos tijolos originais que haviam sido destruídos.
Hoje, o Campanário de São Marcos continua dominando Veneza, quase como se aquele 14 de julho de 1902 nunca tivesse acontecido. No entanto, por trás daqueles tijolos, pedras e daquela silhueta tão familiar, existe uma história de destruição e renascimento que conta muito mais do que uma simples reconstrução arquitetônica.
O desabamento pareceu apagar em poucos segundos quase mil anos de história, mas a resposta dos venezianos foi imediata: reconstruir, tijolo por tijolo, exatamente no mesmo lugar e respeitando, tanto quanto possível, a aparência do antigo campanário.
“Com’era, dov’era” tornou-se, assim, muito mais do que uma decisão administrativa. Transformou-se em uma declaração de identidade, no desejo de uma cidade de não se render à perda de seu símbolo.
Hoje, olhando para o Campanário a partir da Praça São Marcos, é difícil imaginar que aquela torre seja o resultado de uma das mais importantes reconstruções monumentais do século XX. Mas é justamente essa a força da memória: aquilo que é destruído pode ser reconstruído, desde que uma comunidade decida que vale a pena preservar sua história. E o Campanário de São Marcos, que voltou a se erguer sobre a lagoa depois de dez anos de obras, continua ainda hoje a lembrar aos venezianos e ao mundo que alguns símbolos pertencem tão profundamente a uma cidade que podem desabar, mas nunca desaparecer.

