Taranto 2026: os Jogos do Mediterrâneo e a nova aposta de uma cidade histórica

Mas, para Taranto, o esporte é apenas uma parte da história. A cidade quer aproveitar o evento para mostrar uma imagem diferente daquela que durante décadas esteve associada às grandes instalações siderúrgicas, às chaminés e à crise industrial. Os Jogos foram pensados também como uma oportunidade de renovação urbana, turismo e diversificação econômica.
A escolha aconteceu em agosto de 2019, quando o Comitê Internacional dos Jogos do Mediterrâneo aprovou por aclamação a candidatura de Taranto, em reunião realizada em Patrasso, na Grécia. A proposta havia sido construída pela Puglia e pelo município dentro de um plano estratégico mais amplo, chamado Taranto Futuro Prossimo, que procurava justamente reposicionar a cidade a partir de sua relação histórica com o mar e criar novas perspectivas econômicas e sociais.
A competição, inicialmente prevista para 2025, acabou sendo transferida para 2026. Desde então, o projeto passou por mudanças, atrasos e uma forte aceleração na preparação das obras. O resultado é uma rede esportiva que envolve Taranto e outras 14 cidades da Puglia, em um modelo regional pensado para distribuir os efeitos do evento pelo território.
Para entender por que Taranto foi escolhida, é preciso olhar para a própria cidade. Fundada pelos gregos no século VIII a.C., Taranto foi uma das grandes cidades da Magna Grécia e chegou a exercer enorme influência sobre o sul da península Itálica. Sua posição é singular: a cidade se desenvolveu entre o Mar Grande e o Mar Piccolo, dois ambientes marítimos que ajudaram a determinar sua história econômica e cultural.
O patrimônio arqueológico ainda revela essa dimensão. No Museo Archeologico Nazionale di Taranto, o MArTA, estão os famosos Ori di Taranto, refinadas peças de ourivesaria produzidas entre os séculos IV e II a.C., além de milhares de objetos provenientes das antigas cidades gregas da região. A cidade velha, por sua vez, conserva palácios, igrejas e vestígios de diferentes períodos históricos.
É justamente essa combinação entre história e mar que a candidatura de 2019 procurava recolocar no centro da narrativa sobre Taranto. O objetivo não era apagar sua identidade industrial, mas acrescentar novas dimensões a ela: cultura, esporte, turismo, economia do mar e regeneração urbana.
A transformação mais visível está nos equipamentos esportivos. O estádio Erasmo Iacovone será o centro das cerimônias; o novo complexo PalaRicciardi-Giuseppe Valente recebe o atletismo; o Stadio del Nuoto terá estruturas olímpicas para as competições aquáticas; e outros espaços serão utilizados para tênis, esportes de quadra e modalidades náuticas.
Um dos projetos mais interessantes é o Centro Náutico da antiga Stazione Torpediniere, voltado para canoagem e remo e instalado junto ao Mar Piccolo. A ideia é que a estrutura continue funcionando depois dos Jogos, aproveitando justamente aquilo que sempre foi uma das maiores características de Taranto: sua relação com a água.
No total, o projeto envolve dezenas de instalações esportivas em diferentes municípios. O investimento inclui novas estruturas e a recuperação de equipamentos existentes, com a intenção de evitar que os Jogos deixem apenas construções caras e pouco utilizadas depois da competição. É aí que está a verdadeira aposta de Taranto.
Durante duas semanas, milhares de atletas e visitantes colocarão a cidade no mapa internacional. Mas o resultado mais importante deverá aparecer depois de 3 de setembro, quando as arquibancadas esvaziarem e as delegações forem embora.
Se piscinas, estádios, centros esportivos e estruturas náuticas continuarem sendo utilizados por moradores, escolas, clubes e novas competições, os Jogos terão deixado uma infraestrutura capaz de produzir efeitos durante muitos anos. Se conseguirem também estimular turismo, eventos e novos negócios, poderão funcionar como uma peça de uma transformação econômica mais ampla.
Taranto não está tentando esquecer sua história industrial. A questão é outra: fazer com que as antigas chaminés não sejam mais a única imagem possível de uma cidade que, muito antes da indústria, já tinha construído sua identidade olhando para o Mediterrâneo.
