Ao longo das etapas da série Sombras de Nápoles do Jornal Italia, a milenar cidade no sul da Italia revelou-se menos como metrópoles e mais como um sistema de crenças em permanente negociação com o invisível. Dos mitos fundadores da Antiguidade às práticas supersticiosas ainda vivas no cotidiano, o que emerge não é um conjunto de lendas isoladas, mas uma visão de mundo coerente, profundamente enraizada na história urbana e humana da cidade.
Desde o início, com o mito de Partênope, ficou claro que Nápoles nasce sob o signo do limiar. Uma cidade fundada por uma sereia morta, entre terra e mar, entre canto e silêncio, já traz em sua origem a ideia de fronteira: nada aqui é completamente vivo ou completamente morto, completamente racional ou completamente mágico. Essa ambiguidade inicial atravessa toda a história napolitana.
Com os cultos antigos, como o de Diana, e com a sobrevivência de figuras como as janaras, vimos como os rituais pagãos não foram eliminados pela cristianização, mas absorvidos, reinterpretados, deslocados para as margens. As bruxas, transformadas em feiticeiras demonizadas, continuam a representar o saber feminino, ligado aos ciclos naturais, à lua e à cura, numa cidade que sempre temeu e respeitou o poder do conhecimento não oficial.
Essa convivência entre o sagrado institucional e o sagrado popular reaparece com força no culto das almas pezzentelle. Os mortos anônimos, muitos deles vítimas da peste de 1656 – que dizimou quase metade da população napolitana – não foram simplesmente enterrados e esquecidos.
A prática da “scolatura” dos corpos, necessária por razões práticas e sanitárias, produziu uma presença material perturbadora: milhares de crânios sem nome, acumulados em igrejas e ossários como o Purgatorio ad Arco ou o Cemitério das Fontanelle. Diante deles, a cidade escolheu dialogar, adotando esses mortos em troca de proteção, favores e sinais. Um pacto íntimo, doméstico, que transforma a morte em interlocutora.
Esse mesmo princípio de negociação aparece na relação com San Gennaro. O milagre do sangue que se liquefaz não é vivido como dogma, mas como sinal. O santo não é distante nem absolutamente benevolente: é uma entidade com a qual se conversa, se discute, se cobra. A fé napolitana, como vimos, não é passiva. É contratual.
Quando descemos ao subsolo da cidade, essa lógica se torna ainda mais evidente. A Nápoles subterrânea – feita de túneis gregos, cisternas romanas, refúgios de guerra – mostra que a cidade nunca eliminou seus estratos anteriores. Tudo permanece, comprimido, reutilizado, às vezes esquecido, mas nunca apagado. A mesma cidade que constrói para cima, acumula para baixo. E nas profundezas, história, trauma e superstição se misturam, produzindo uma memória inquieta, difícil de pacificar.
Até mesmo as casas, como vimos no episódio dedicado à Bella ’Mbriana, não são espaços neutros. São entidades vivas, habitadas por presenças invisíveis que exigem respeito. Nada deve ser feito para expulsá-las, porque proteger uma casa, em Nápoles, significa aceitar que ela nunca está completamente vazia.
O que emerge, ao final desse percurso, é a constatação de que a superstição napolitana não é resíduo de ignorância, nem folclore decorativo. É uma forma de inteligência cultural, construída ao longo de séculos de instabilidade, violência natural, epidemias, ocupações estrangeiras e abandono político. Quando as instituições falharam, o invisível ofereceu sentido, proteção simbólica e continuidade.
Nápoles não resolveu seus conflitos com o sobrenatural. Preferiu conviver com ele. Transformou deuses em santos, mortos em protetores, casas em organismos vivos, cidades subterrâneas em arquivos da memória. Nada foi exorcizado definitivamente. Tudo foi integrado.
Encerrar Sombras de Nápoles não significa concluir um percurso, mas reconhecer um método. Porque compreender Nápoles exige aceitar que, aqui, a realidade nunca se esgota no que é visível, mensurável ou racional. A cidade construiu sua identidade dialogando com aquilo que não podia controlar: a morte, a natureza, o acaso, o sagrado.
Ao longo dos séculos, Nápoles não tentou expulsar o invisível. Preferiu integrá-lo. Transformou deuses antigos em santos cristãos, mortos anônimos em protetores, casas em organismos vivos, o subsolo em arquivo da memória coletiva. Cada mito, cada ritual, cada superstição é uma resposta prática a uma história marcada pela instabilidade e pela necessidade constante de proteção.
É por isso que, ainda hoje, em Nápoles, nada é totalmente abandonado e nada é completamente esquecido. O passado permanece ativo, convivendo com o presente, influenciando gestos, escolhas e medos. Não como nostalgia, mas como estrutura.
Sombras de Nápoles termina aqui. A cidade, não.
Ela continuará falando através de seus mitos, de suas crenças e de suas sombras.
E quem aprende a escutá-la entende que, em Nápoles, viver nunca foi apenas existir.
Foi sempre aprender a conviver com o invisível.
Sombras de Nápoles: Viver com o invisível: mitos, superstição e identidade na cidade de Nápoles

