Envelhecer nunca foi apenas uma questão biológica. Em uma sociedade cada vez mais orientada pela imagem, pela produtividade e pela performance, o passar do tempo se transforma também em um tema cultural, psicológico e social. Na Itália, esse sentimento ganhou até um nome simbólico: a chamada “síndrome de Dorian Gray”.
Segundo o jornal Il Giorno, uma pesquisa da Universidade Católica revela que cerca de um em cada dois italianos tem medo de envelhecer, sobretudo pela possibilidade de perder atratividade física. Mas a preocupação vai além da aparência. Quase metade dos entrevistados teme deixar de ser útil para os outros, indicando que o verdadeiro receio está ligado ao papel social e ao reconhecimento.
O estudo mostra que o envelhecimento é percebido principalmente como uma ameaça simbólica. Não se trata apenas de saúde ou de limitações físicas, mas da sensação de perder relevância, competência e espaço na sociedade. Cerca de 41% dizem temer contar menos para o mundo ao redor, enquanto 30% demonstram frustração por não terem alcançado metas consideradas importantes ao longo da vida.
Curiosamente, a ideia de velhice está mudando. Hoje, muitos italianos só consideram a entrada na terceira idade por volta dos 71 anos, refletindo o aumento da expectativa de vida e uma percepção mais tardia do envelhecimento. Ainda assim, esse novo horizonte não elimina a ansiedade ligada ao tempo que passa.
As diferenças entre gerações também ajudam a entender o fenômeno. Entre os jovens, o maior medo é não conseguir atingir objetivos de vida impostos socialmente. Já adultos de meia-idade mostram maior sensibilidade ao julgamento externo, especialmente em relação à aparência e à possibilidade de exclusão social.
O recorte de gênero revela outro dado relevante. As mulheres demonstram maior preocupação com a perda de utilidade social e com metas não alcançadas, indicando uma pressão ainda mais intensa sobre identidade e reconhecimento ao longo da vida.
O nome da síndrome remete ao personagem de Oscar Wilde, que permanece jovem enquanto seu retrato envelhece. A metáfora continua atual. Em um mundo que valoriza a juventude como padrão, envelhecer pode ser percebido como uma espécie de perda invisível, mesmo quando a vida se prolonga e as possibilidades aumentam.
Ao mesmo tempo, o estudo aponta para uma transformação em curso. Viver mais também significa repensar o significado das diferentes fases da vida. O desafio, cada vez mais evidente, é construir uma cultura que valorize a longevidade não como um problema, mas como uma oportunidade de continuar participando, contribuindo e reinventando o próprio papel na sociedade.
Síndrome de Dorian Gray: metade dos italianos teme envelhecer e perder espaço na sociedade

