sex. fev 27th, 2026

Roma e as Séries TV #3 – Domina (2021–2023)

Em Domina, Roma não é cenário é estrutura mental. A série, centrada na ascensão de Livia Drusilla, esposa de Augusto, constrói uma capital que respira estratégia. Não há aqui o espetáculo das multidões, nem a monumentalidade celebratória que marcou outras representações do Império. O que vemos é uma cidade filtrada por paredes, por ângulos, por corredores que comprimem o espaço e, ao mesmo tempo, ampliam o jogo político.

Em Domina, a arquitetura fala baixo mas fala com precisão. Os palácios não são apenas residências aristocráticas: são máquinas de contenção. Colunas, pátios internos, escadarias e salas fechadas organizam a hierarquia social de modo quase coreográfico. Cada deslocamento físico corresponde a um deslocamento simbólico.

A Roma da série é construída sobretudo por dentro. Os interiores dominam a narrativa visual: ambientes sombreados, texturas em pedra e mármore, luz filtrada por véus e arcadas. A geometria dos espaços reforça a ideia de que o poder não precisa gritar. Ele se insinua. Ele observa. Ele espera.

Essa escolha estética redefine a percepção da capital imperial. Não se trata da Roma expansiva dos fóruns cheios, mas de uma cidade introspectiva, onde o comando se exerce longe da praça pública. O centro político desloca-se para os espaços privados e é ali que o destino do Império é decidido.

Se a arquitetura é o corpo de Roma, o silêncio é sua respiração. Domina utiliza pausas, olhares e enquadramentos estáticos para criar tensão. O poder feminino de Livia se constrói menos pela retórica e mais pela presença. A câmera frequentemente a enquadra entre colunas ou através de portas entreabertas, sugerindo que sua influência opera nas margens visíveis do poder formal.

Esse uso do silêncio cria uma Roma contida, onde cada palavra pesa e cada gesto pode redefinir alianças. O espectador é convidado a ler os espaços: quem ocupa o centro da sala? Quem permanece à sombra? Quem observa da galeria superior? A política imperial transforma-se em teatro arquitetônico.

Diferentemente de produções como Rome ou Gladiator, que enfatizam o conflito público, Domina privilegia a dimensão doméstica do poder. A cidade é percebida como um organismo interno feito de câmaras privadas, alianças familiares, pactos silenciosos.

Roma torna-se quase claustrofóbica. O Império nasce e se consolida em espaços fechados. Essa opção narrativa reforça a ideia de que a verdadeira arena política não é o anfiteatro, mas o átrio; não é o fórum, mas o quarto privado onde decisões irreversíveis são tomadas.

Há uma precisão quase matemática na forma como os ambientes são organizados. Simetria, centralidade e profundidade de campo estruturam visualmente a autoridade. Quando Livia ocupa o eixo central do enquadramento, o espaço parece submeter-se à sua lógica. Quando é colocada à margem, a cena sugere vulnerabilidade estratégica.

Roma, nesse sentido, é uma cidade geométrica. Não se impõe pelo excesso, mas pelo cálculo. O poder circula como uma linha invisível que atravessa corredores e conecta ambientes. A capital imperial transforma-se em tabuleiro e cada sala é uma casa estratégica.

A fragilidade também está presente. A solidez do mármore contrasta com a instabilidade política. A cidade monumental abriga relações frágeis, pactos provisórios, sucessões incertas. Em Domina, a sobrevivência é tão central quanto a conquista.

Roma é mostrada como um equilíbrio delicado entre força e inteligência. A arquitetura, aparentemente eterna, abriga decisões que podem desmoronar impérios. Esse contraste confere à série uma dimensão contemporânea: o poder, mesmo quando monumental, é sempre vulnerável.

Domina oferece, assim, uma leitura sofisticada da capital imperial: uma Roma interiorizada, onde o espaço físico espelha o espaço político. Não é a cidade do clamor popular, mas da estratégia silenciosa. Uma Roma que não se impõe pela multidão mas pela precisão da forma e pela densidade do olhar.

Direção: Claire McCarthy, David Evans
Elenco principal: Kasia Smutniak, Matthew McNulty
Ano: 2021–2023
Locais em Roma: Estúdios Cinecittà, locações arqueológicas e históricas

Onde assistir: Prime Video  

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