ter. maio 5th, 2026

Quando a fome não deixa escolha: a carne na Itália que não contamos

Não existe uma receita. Não existe uma tradição codificada. Não existe sequer um orgulho gastronômico a ser defendido. E, no entanto, durante décadas, na Itália também se comeu.

Dizer isso hoje causa desconforto. É normal. Porque o problema não é culinário, é cultural. O gato, no nosso imaginário contemporâneo, é companhia, afeto, casa. Mas nem sempre foi assim. Ou melhor: não foi assim quando a fome era mais forte que qualquer categoria moral. É preciso voltar no tempo. Não séculos atrás, mas algumas gerações.
Durante a guerra e ainda mais no pós-guerra, a Itália era um país esvaziado. Cidades bombardeadas, campos empobrecidos, cadeias alimentares interrompidas. A carne era luxo. O pão, muitas vezes, também. Nesse vazio, a ideia do que é “comida” se expande.
E então acontece o que hoje parece impensável: come-se tudo o que pode virar alimento.

Em algumas áreas do Norte da Itália, especialmente no Veneto e na Lombardia, a carne de gato entra na cozinha doméstica mais pobre. Não em restaurantes, não nas mesas burguesas. Nas casas onde se sobrevivia.
Em Vicenza essa memória ficou até na linguagem: “magnagati”. Um apelido que atravessou o tempo, nascido de uma realidade concreta e hoje transformado em ironia.

Mas por trás dessa palavra existe uma história dura.
O gato era geralmente preparado em ensopados, com longas cocções, especiarias quando havia, vinho se possível. Não para valorizar o sabor que não era o objetivo mas para tornar comestível aquilo que se tinha.
Não existia uma “culinária do gato”. Existia a culinária da fome.
Guerra, miséria e adaptação

Durante a Segunda Guerra Mundial, o racionamento alimentar impunha limites rígidos. Os cartões de racionamento definiam quantidades mínimas, muitas vezes insuficientes. O mercado paralelo existia, mas não era acessível a todos.
Quem ficava fora desse sistema precisava se virar.

É nesse contexto que surgem práticas extremas, mas difundidas: animais de rua, pequenos animais selvagens, tudo o que pudesse ser capturado. O gato, presente tanto no ambiente urbano quanto rural, tornava-se um recurso.

Não foi um fenômeno exclusivamente italiano. Aconteceu em toda a Europa em momentos de crise. Mas na Itália, onde a comida é identidade, essa fratura permanece mais visível.
Porque revela um paradoxo: o país da gastronomia celebrada no mundo também foi um país onde se comeu por necessidade, não por escolha.

Com o boom econômico dos anos 60, tudo muda. Muda a renda, muda o acesso aos alimentos e, sobretudo, muda a relação com os animais.
O gato deixa de ser apenas um animal útil caçador de ratos nas zonas rurais e passa a ser companheiro.
Aquilo que antes era tolerado torna-se impensável.
Hoje, na Itália, o abate e o consumo de carne de gato são proibidos por lei e socialmente rejeitados sem ambiguidades. Não existe continuidade com aquele passado. Mas a memória permanece.
Uma memória muitas vezes removida, desconfortável. Porque quebra a narrativa idealizada da cozinha italiana feita apenas de excelência, tradição e orgulho.

Falar dessas práticas não é provocar. É compreender.
A comida não é apenas cultura. É condição econômica, contexto histórico, necessidade. É aquilo que uma sociedade faz quando não tem alternativas.
E então a pergunta muda.
Não “comiam gatos?”, mas: que tipo de país era aquele onde isso acontecia?
Talvez seja aí que essa história se torna importante.
Porque nos lembra que a cozinha italiana que hoje exportamos feita de produtos típicos, qualidade e identidade também nasce de um passado de escassez, adaptação e sobrevivência.

E que por trás de cada prato celebrado, às vezes, existe uma sombra que preferimos não ver.

Não por vergonha.

Mas porque, felizmente, já não nos pertence mais.

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