qua. fev 4th, 2026

Os italianos se casam muito menos e (se for) cada vez mais tarde


Casar já não é mais um passo automático da vida adulta na Itália. Aos poucos, o matrimônio deixou de ser um marco inevitável e passou a ser uma escolha cada vez mais adiada — ou simplesmente descartada. Os dados mais recentes divulgados pelo Istat ajudam a entender essa transformação silenciosa, que mistura mudanças culturais, desafios econômicos e novos modos de viver os afetos.

Em 2024, foram celebrados pouco mais de 173 mil casamentos no país, quase 6% a menos do que no ano anterior. A queda não é pontual: trata-se de uma tendência contínua, que segue firme também nos primeiros meses de 2025. Os primeiros casamentos, tradicionalmente o coração das estatísticas matrimoniais, recuaram ainda mais. Ao mesmo tempo, separações e divórcios também diminuíram, sinalizando que não é apenas o “fim” das uniões que está em jogo, mas uma redefinição mais ampla da vida conjugal.

A idade média ao se casar continua subindo. Hoje, os homens chegam ao altar por volta dos 35 anos e as mulheres perto dos 33. Pouco mais de uma década atrás, esses números eram bem menores. Segundo os pesquisadores, não se trata apenas de preferência pessoal: trajetórias de estudo mais longas, inserção tardia no mercado de trabalho e contratos cada vez mais instáveis empurram para frente decisões que antes eram tomadas mais cedo, como sair da casa dos pais e formar uma família.

Não por acaso, quase dois terços dos jovens italianos ainda vivem com a família de origem até os 35 anos. Esse prolongamento da convivência familiar, comum em períodos de incerteza econômica, acaba adiando também o casamento. Soma-se a isso a maior aceitação social das convivências sem formalização, que hoje funcionam como alternativa — ou etapa intermediária — para muitos casais.

Outro dado que chama atenção é a mudança no “como” se casa. Mais de 60% das uniões já são celebradas no civil, uma escolha que se torna quase absoluta nas segundas núpcias. Os casamentos religiosos continuam em queda acentuada, refletindo uma sociedade menos vinculada a ritos tradicionais e mais aberta a formatos personalizados.

Em meio a tantos sinais de retração, há algumas curiosidades que apontam para novos caminhos. Crescem os casamentos envolvendo cidadãos estrangeiros ou novos italianos, fruto de um processo de integração cada vez mais visível. Muitos desses casais, que antes seriam classificados como “mistos”, hoje reúnem pessoas que adquiriram a cidadania italiana após nascerem fora do país. É uma Itália que muda de rosto, de sobrenome e de história familiar.

Também avança o chamado turismo matrimonial. A Itália segue sendo cenário de sonhos para casais estrangeiros que escolhem vilas históricas, campos toscanos ou cidades de arte para dizer “sim”. Em 2024, quase 3.400 casamentos foram celebrados entre noivos estrangeiros não residentes, um pequeno número no total, mas cheio de simbolismo.

No fundo, o declínio dos casamentos não fala de menos amor, mas de mais complexidade. Amar, hoje, passa por escolhas mais cautelosas, tempos mais longos e formatos mais diversos. E talvez seja justamente aí que esteja a maior curiosidade desse retrato: a Itália continua romântica, mas aprendeu a viver o romance de outras formas.

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