qua. jan 14th, 2026

Olimpíadas de Inverno Milano-Cortina: de festa popular a luxo para poucos eleitos

Houve um tempo em que as Olimpíadas eram uma promessa coletiva. Um evento capaz de unir famílias, estudantes, entusiastas comuns, pessoas dispostas a viajar de trem ou ficar em hospedagens simples apenas para assistir a uma competição, ver um atleta de perto, sentir a energia de algo maior. Milano-Cortina 2026, no entanto, conta outra história uma em que o esporte continua universal, mas o acesso se torna cada vez mais exclusivo, caro e distante do público em geral.

Giovanni Malagò, presidente da Fundação Milano-Cortina, tenta amenizar as críticas falando em “um toque de verdade, mas muita desinformação”. Ele lembra que quase metade dos ingressos custa menos de 40 € (aproximadamente R$ 250) e alguns até abaixo de 20 € (cerca de R$ 125) para certas modalidades. Isso é real. Mas o problema não está no preço de um ingresso isolado está no custo total da experiência olímpica.

Pois o verdadeiro nó não é apenas entrar em uma arena. É chegar lá. É dormir. É viver o fim de semana olímpico.

Segundo pesquisa da Altroconsumo, um fim de semana olímpico para duas pessoas em fevereiro de 2026 pode ultrapassar facilmente os 2.000 € (aproximadamente R$ 12.540) em Cortina d’Ampezzo, incluindo hospedagem, transporte e ingressos. Na Valtellina, esse valor gira em torno de 1.700 € (cerca de R$ 10.660). Em Milão, por outro lado, o custo total fica em torno de 300 € (cerca de R$ 1.880) ainda alto, mas significativamente menor.

A acomodação é o principal peso nesse orçamento olímpico. Dormir em um hotel três estrelas ou em um Airbnb nas localidades de montanha durante os jogos pode custar cifras que há poucos anos seriam impensáveis. Em Cortina, por duas noites, a média ultrapassa os 2.000 € (aproximadamente R$ 12.540), o que representa um aumento de 261% em comparação com um fim de semana comum de janeiro. Na Valtellina, o acréscimo é ainda maior: 437% a mais que um fim de semana normal, com uma média de cerca de 1.700 € (R$ 10.660). Val di Fiemme e Milão sofrem aumentos também quase o dobro embora a diferença não seja tão extrema quanto nas montanhas.

E nem sempre o Airbnb é uma alternativa mais barata. Em Cortina, muitos apartamentos superam os 3.000 € (aproximadamente R$ 18.810) por um fim de semana olímpico, ficando até mais caros do que hotéis. Em outras regiões como Valtellina e Val di Fiemme, a relação entre os tipos de hospedagem varia, mas a conclusão é a mesma: a montanha olímpica virou território de luxo.

O transporte, embora não exploda como os custos de hospedagem, ainda pesa no orçamento. Uma viagem de trem de ida e volta para duas pessoas de Milão a Cortina pode custar cerca de 216 € (aproximadamente R$ 1.350); de Roma a Cortina, cerca de 338 € (mais de R$ 2.120); e de Turim, cerca de 318 € (aproximadamente R$ 2.000). Mesmo sem aumentos astronômicos, o custo permanece significativo, especialmente considerando que, em períodos olímpicos, as tarifas mínimas ficam mais difíceis de encontrar.

E então chegam os ingressos em si, que também variam bastante. Em Milão, assistir a uma partida de hóquei no gelo pode sair por menos de 100 € (cerca de R$ 630) para duas pessoas. Outras modalidades, como biatlo, curling e esqui cross-country também se mantêm em patamares mais acessíveis. Mas mudar o esporte pode elevar o preço: modalidades como esqui acrobático e short track ultrapassam 300 € (aproximadamente R$ 1.880), e o patinagem artística pode chegar a cerca de 560 € (aproximadamente R$ 3.510). Assim, um fim de semana olímpico “modesto” em Milão pode ficar em torno de 700 € (aproximadamente R$ 4.390) para duas pessoas. Em Cortina, torcer pelos campeões do esqui alpino pode custar mais de 2.800 € (cerca de R$ 17.560), acomodação incluída.

É aqui que a reflexão se torna inevitável. As Olimpíadas não foram originalmente concebidas para ser um produto exclusivo. Elas nasceram como festa do povo, evento em que o esporte falava com todos não apenas com quem podia pagar valores elevados por hospedagem, transporte e ingressos premium.

Milano-Cortina 2026 revela o lado contemporâneo dos grandes eventos: maiores, mais espetaculares, mas também mais distantes do público comum. Cidades icônicas como Milão, Cortina d’Ampezzo, Valtellina e Val di Fiemme se transformam em cenários extraordinários, sim, mas cada vez menos acessíveis à maioria.

O esporte continua universal. Mas vivenciar os jogos, estar lá, hoje, virou privilégio. Talvez a pergunta já não seja quanto custa um ingresso, mas quanto custa, de fato, sentir-se parte dos Jogos.

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