Após mais de cinquenta anos de silêncio, a igreja de Santa Caterina dei Funari voltou a respirar no coração do bairro Sant’Angelo. Suas portas, voltadas para a Via dei Funari, reabriram na terça-feira, 25 de novembro devolvendo à cidade não apenas um espaço de culto, mas um precioso fragmento de sua história artística e social, um relicário que permaneceu tempo demais na sombra, como um teatro fechado à espera de seu público.
A história desta igreja tem raízes na Idade Média, quando, em 1192, aparece em uma bula papal com o nome Sancta Maria dominae Rosae, referência talvez a uma fundadora leiga, a enigmática “domina Rosa”. Ao longo dos séculos o templo muda diversas vezes de título, inclusive para São Lourenço, até que o nome ligado aos funari, os artesãos de cordas ativos na região, se torna definitivo.
O século XVI marca a grande transformação do complexo. Em 1536, o Papa Paulo III o confia a Inácio de Loyola, que aqui cria uma casa para meninas pobres e em situação de risco, um exemplo extraordinário de assistência feminina na Europa da época. Por sua influência, pouco depois, o cardeal Federico Cesi financia a reconstrução da igreja, confiada a Guidetto Guidetti, discípulo de Michelangelo. Quando os trabalhos terminam, em 1564, Santa Caterina dei Funari surge como uma elegante arquitetura renascentista, compacta e luminosa no travertino de sua fachada.
No interior, a nave única conduz a uma sequência de capelas que parecem um manual vivo do tardo-maneirismo romano. Na Capela Bombasi destaca-se a Santa Margarida, de Annibale Carracci (1597–1599), obra que introduz em Roma o vigoroso naturalismo do mestre emiliano. Acima, a Coroação de Maria, de Innocenzo Tacconi — baseada em um desenho do próprio Carracci — acrescenta uma nota íntima e harmoniosa.
Mais adiante, a Capela Ruiz, projetada por Vignola, abriga a Deposição de Girolamo Muziano e as elegantes decorações de Federico Zuccari, realizadas em 1571. Na capela concebida por Ottaviano Mascarino encontra-se a Assunção de Scipione Pulzone, deixada inacabada após sua morte em 1598. Do lado esquerdo, Marcello Venusti pinta em ardósia um refinado ciclo dedicado a São João, enquanto na Capela Canuto Girolamo Nanni introduz acentos já mais plenamente barrocos.
O complexo, porém, nem sempre foi envolvido por essa luz. Em 1940, o convento na parte posterior foi demolido, e por décadas a igreja viveu um período de abandono. A partir dos anos 1990 iniciaram-se importantes restaurações: primeiro estruturais, depois focadas nas capelas, nas superfícies pintadas e nos pórticos. As pesquisas ligadas à Crypta Balbi também permitiram compreender com mais precisão as transformações de todo o quarteirão.
A reabertura, viabilizada pelo empenho do ASP Istituto Romano di San Michele e pensada para o Jubileu, representa o ápice desse longo percurso de cuidado. A igreja está novamente acessível, segura e valorizada para que seu patrimônio artístico possa ser apreciado em toda a sua complexidade.
No denso tecido do centro histórico, Santa Caterina dei Funari volta a dialogar com a cidade. Conta uma história de acolhimento e espiritualidade, mas também de arte e beleza: uma voz antiga que enfim se reacende, pronta para guiar quem atravessar sua porta em um diálogo silencioso entre pedras, imagens e memória.



