Quem chega à Sardegna quase sempre carrega o mesmo roteiro mental.
Mar. Praias. Porceddu.
E, no entanto, existe um prato que raramente aparece nas listas do visitante, que não domina os cartões-postais, que não é protagonista das narrativas turísticas. Um prato que não seduz pela estética, mas pela verdade.
Sa trattalia.
Não é fotogênica. Não é confortável. Não é gentil.
É visceral em todos os sentidos.
O sabor antigo das necessidades
A trattalia nasce onde nasce grande parte da cozinha autêntica: na necessidade.
Não aquela romantizada, mas a concreta, material, inevitável. Aquela que impunha uma regra simples e absoluta: nada se desperdiça.
Coração, fígado, pulmões, baço, intestinos. Partes que hoje muitos consideram secundárias, mas que durante séculos foram substância, sobrevivência, alimento essencial.
É aqui que a gastronomia deixa de ser tendência e volta a ser antropologia.
A trattalia não é uma criação culinária.
É memória comestível.
Um prato que não tenta agradar.
Na era da comida feita para agradar algoritmos, Sa trattalia permanece indomável.
Não se simplifica. Não se adapta. Não se suaviza.
As vísceras são lavadas com rigor, cortadas com precisão quase cirúrgica, montadas no espeto segundo sequências específicas. Depois vem o gesto que distingue o prato de qualquer outra preparação: o envolvimento.
Primeiro a rede. Depois o intestino.
Nasce a sa nappa.
Não é apenas técnica.
É linguagem cultural.
O tempo da brasa, a cocção é lenta, inevitavelmente lenta.
A brasa exige paciência, controle, atenção.
Por fora, forma-se uma crosta crocante.
Por dentro, permanece uma textura macia, intensa, profundamente saborosa.
Não é um gosto que acaricia.
É um gosto que impacta.
E talvez seja exatamente isso que o torna tão autêntico.
Mais identitário que o porceddu?
Pergunta desconfortável. Mas legítima.
O porceddu é o símbolo mais conhecido, o mais exportado, o mais fotografado.
Sa trattalia, ao contrário, permanece mais íntima, menos midiática, quase reservada a quem deseja compreender a ilha além dos clichês.
Porque ela conta algo que poucos pratos conseguem contar.
Necessidade. Ritual. Relação direta com a matéria.
O sabor que divide e por isso resiste.
Não é um prato universal. Nem pretende ser.
Há quem ame. Há quem evite.
Mas é justamente essa divisão que preserva sua identidade.
A trattalia não nasceu para agradar todos.
Nasceu para permanecer fiel à própria história.
Em um mundo gastronômico que frequentemente busca suavizar, padronizar e adaptar, Sa trattalia continua sendo aquilo que sempre foi.
Não apenas comida. Mas narrativa, cultura e memória da Sardegna.

