qua. jan 7th, 2026

O Porcellino de Florença: quando a sorte passa pelo focinho

Em Florença, a sorte não cai do céu. Ela corre junto com a água, se consome no bronze, se torna brilhante sob o toque de milhares de mãos. Basta parar sob a Loggia del Mercato Nuovo, entre bancas, vozes que se sobrepõem e passos apressados, para perceber que ali se repete um pequeno ritual contínuo. Um gesto simples, quase automático: uma carícia no focinho do Porcellino. No entanto, por trás desse gesto aparentemente banal, esconde-se uma história de mais de quatro séculos, feita de poder, arte, superstição e vida cotidiana.

O nome engana. Aquilo que todos chamam de “Fontana del Porcellino” não representa um porco doméstico, mas um imponente javali de bronze, de corpo tenso e olhar atento. A obra que vemos hoje é uma cópia seiscentista de uma escultura helenística em mármore, chegada a Florença por vontade de Cosimo I de’ Medici, como presente de Papa Pio IV. Um objeto antigo, carregado de simbolismo, que ao longo do tempo se transformou em um dos amuletos mais famosos da Europa.

A versão em bronze foi realizada por Pietro Tacca, discípulo predileto de Giambologna e mestre absoluto da técnica da cera perdida. A encomenda data de 1612, mas o caminho da obra foi longo: primeiro o modelo em cera, depois anos de espera, até a fusão definitiva, concluída em 1633, quando governava a Toscana Ferdinando II de’ Medici. Inicialmente, o javali foi colocado em frente a uma antiga botica; mais tarde, foi transferido para o coração do mercado, onde o próprio Ferdinando II decidiu transformá-lo também em uma fonte pública. Não apenas beleza, mas utilidade: por anos, cidadãos e mercadores beberam água ali mesmo, sob o focinho do Porcellino.

É provavelmente dessa familiaridade cotidiana que nasce a lenda. O focinho, desgastado pela água e pelo contato constante das mãos, começou a brilhar. Mais claro que o resto do corpo, mais vivo. De simples sinal do tempo, tornou-se símbolo. Tocá-lo passou a significar bom presságio, retorno garantido à cidade, proteção para o futuro. Florença, afinal, sempre soube transformar o desgaste em narrativa.

Com o passar dos séculos, o gesto virou ritual. Primeiro, esfrega-se o focinho. Depois, coloca-se uma moeda na boca do javali. Se, ao cair, a moeda ultrapassar a grade por onde escorre a água, a sorte está assegurada. Caso contrário, não. Na prática, a inclinação favorece apenas as moedas mais pesadas, mas até esse detalhe faz parte do jogo. Um pequeno teste de fé, mais do que de física. As moedas recolhidas não se perdem: são doadas integralmente à Opera della Divina Provvidenza Madonnina del Grappa, transformando superstição em solidariedade.

O Porcellino que vemos hoje, no entanto, não é o original do século XVII. Justamente por causa do consumo excessivo do focinho, a estátua foi substituída diversas vezes. A versão histórica encomendada pelos Médici encontra-se atualmente preservada no Museo Stefano Bardini, protegida das carícias incessantes dos passantes. Uma escolha necessária, que evidencia ainda mais o paradoxo: o valor dessa obra não reside apenas na matéria, mas na relação física e contínua com a cidade.

Hoje, o Porcellino é fotografado, copiado, reproduzido. Mas continua sendo, sobretudo, um ponto de contato. Entre passado e presente. Entre arte e superstição. Entre Florença e quem a atravessa, talvez pela primeira vez. E é inevitável perguntar se a sorte está realmente no bronze ou naquele gesto lento e repetido, que obriga quem passa a parar por um instante. A tocar a cidade. A tornar-se, ainda que por um momento, parte da sua história.

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