Por anos, vendemos a elas o conceito de “empoderamento” como um troféu de exaustão. A mulher contemporânea deveria ser uma fortaleza: executiva implacável, mãe presente, amante incansável e gestora do lar. Mas o que acontece quando essa mulher, seja em São Paulo ou em Milão, cruza a fronteira dos 40 ou 50 anos?
Em vez da prometida liberdade, muitas encontram uma súbita vulnerabilidade. O corpo muda, o tempo acelera e o olhar externo endurece. Mas a verdadeira revolução acontece do lado de dentro. A fragilidade, longe de ser um tropeço, revela-se uma transição silenciosa de identidade que une mulheres em ambos os lados do Atlântico.
A transformação física costuma ser reduzida a pautas de beleza, cremes anti-idade e procedimentos estéticos. No entanto, a questão é identitária. O corpo é o relógio biológico onde a passagem do tempo se faz carne.
Tanto no Brasil, com seu culto à juventude eterna, quanto na Itália, terra da “bella figura”, a sociedade prega a aceitação enquanto premia a “permanência”. O elogio máximo é “você não mudou nada”. O medo real dessas mulheres não é envelhecer, mas deixar de se reconhecer no espelho, tornando-se invisíveis em culturas que idolatram o novo.
Existe uma fragilidade concreta que o glamour não mostra: a carga mental. Mulheres de todo o mundo, brasileiras, italianas, são culturalmente treinadas para serem o eixo gravitacional da família.
Nesta fase da vida, elas se veem imprensadas na “geração sanduíche”: cuidam dos filhos que demoram a sair de casa e dos pais que envelhecem. O cansaço não encontra legitimidade. Vive-se o paradoxo da força: quanto mais você aguenta, mais o mundo lhe entrega peso. E o direito de desabar é revogado.
A solidão não é física; é a ausência de escuta. É possível estar cercada de gente em um almoço de domingo barulhento na Toscana ou em um churrasco no Rio de Janeiro, e ainda assim sentir-se desamparada.
Os relacionamentos também entram na fase da verdade. A paciência para concessões que anulam a personalidade se esgota. Cresce a consciência e diminui a tolerância para afetos mornos. Busca-se reciprocidade real, não apenas companhia.
A fragilidade econômica é o “elefante na sala”. A mulher acima dos 40 está, muitas vezes, no auge de sua competência intelectual e estratégica. Contudo, vive sob a mira do etarismo. A pressão para se manter atualizada e performar o dobro para provar o mesmo valor que um jovem é uma realidade global. O mercado, viciado em novidade, olha para a experiência com desconfiança, gerando uma insegurança financeira que corrói a autonomia.
Foi navegando essas águas turbulentas que a jornalista brasileira Mara Ferraz transformou um luto pessoal em uma missão pública. Sua dor metamorfoseou-se na série de palestras “A fruta madura é mais doce”, um manifesto sobre como ressignificar a vida após os 40 e 50 anos.
A proposta não é negar a fragilidade, mas usá-la como combustível: da reconquista da autoestima à reinvenção profissional. Agora, o projeto cruza o oceano. A iniciativa desembarca na Itália, percorrendo as principais cidades para dialogar com o universo feminino local, focando especialmente naquelas em situação de fragilidade social e econômica, mulheres cujas dores são frequentemente ignoradas pelo discurso público europeu.
As incertezas que surgem após os 40 não são sinais de fraqueza, mas de uma lucidez brutal. É o momento em que as máscaras da perfeição, do controle e do eterno “está tudo bem” caem por terra.
Seja tomando um espresso ou um cafezinho, a conclusão é a mesma: a vida exige uma nova forma. E talvez seja exatamente na aceitação dessa fragilidade que comece a liberdade mais verdadeira: não a de provar algo ao mundo, mas a de finalmente se apresentar a si mesma.

