O muro que dividia Roma: o lado oculto do Fórum de Augusto

Para quem percorre hoje a via Baccina, no coração do bairro Monti, Roma ainda é capaz de surpreender de forma inesperada.

Entre vielas, pequenas lojas e edifícios históricos, surge uma presença monumental que parece pertencer a outra dimensão da cidade: o gigantesco muro do Foro di Augusto, ao longo da via di Tor de’ Conti.

É um dos muros mais impressionantes da Roma antiga ainda preservados.

Construído com enormes blocos de peperino e pedra sperone, alcança 33 metros de altura e transmite, até hoje, toda a força monumental do urbanismo imperial da época de Augusto.

Mas esse muro não tinha apenas uma função cenográfica.

Sua principal missão era separar dois mundos profundamente distintos.

De um lado estava o Fórum de Augusto, símbolo do poder imperial, da ordem e da propaganda política do primeiro imperador de Roma. Do outro, a Suburra: um bairro popular, densamente habitado, barulhento e constantemente ameaçado pelos incêndios que se espalhavam com facilidade entre as construções de madeira.

Esse gigantesco muro era, portanto, uma verdadeira barreira de proteção, erguida para preservar o coração monumental do Império diante do caos da cidade real. Ainda hoje, ao observá-lo de perto, é possível perceber o contraste entre a Roma celebrada pelos imperadores e a Roma vivida diariamente por seu povo.

Encostada a essa extraordinária estrutura arqueológica está a Casa dei Cavalieri di Rodi, um dos edifícios mais fascinantes, e também um dos menos conhecidos, da região dos Fóruns Imperiais. Sua história resume como poucas as infinitas camadas que compõem Roma.

No século IX, monges basilianos construíram ali o mosteiro de San Basilio. Em 1230, o complexo passou para a Ordem de São João, que mais tarde se transformaria na Ordem de Rodes e, posteriormente, na Ordem de Malta. Ao longo dos séculos, estruturas medievais, renascentistas e religiosas foram literalmente se apoiando sobre as arquiteturas da antiga Roma imperial.

Poucos metros adiante existia também a Igreja da Annunziata, reconstruída no século XVII em estilo barroco exatamente sobre o pódio do Templo de Marte Ultor, o santuário simbólico do Fórum de Augusto dedicado ao deus da guerra e vingador de César.

Durante séculos, Roma viveu exatamente assim: uma cidade construída sobre si mesma, onde Idade Média, Renascimento e Barroco conviviam literalmente sobre os alicerces da Antiguidade.

Tudo mudou, porém, durante o período fascista.

Entre 1924 e 1932, as grandes demolições realizadas para abrir a via dell’Impero, atual Via dei Fori Imperiali, destruíram bairros inteiros medievais e modernos para revelar novamente a monumentalidade da Roma antiga.

A Igreja da Annunziata foi demolida, juntamente com grande parte das construções que ocuparam essa área durante séculos. A própria Casa dei Cavalieri di Rodi quase teve o mesmo destino, mas acabou parcialmente preservada e restaurada, ainda que isolada do tecido urbano que a cercava.

Hoje, caminhando pela via di Tor de’ Conti, esse grande muro continua narrando todas as épocas da cidade.

Roma imperial, Roma medieval, Roma barroca e Roma do século XX coexistem no mesmo espaço, transformando uma simples caminhada pelo bairro Monti em uma verdadeira viagem por mais de dois mil anos de história.

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