Caros leitores do Jornal Italia, alguns de vocês já me conhecem, outros me conhecerão ao longo dos anos. Deixem-me me apresentar: meu nome é Francesco Sibilla, nascido, criado e vivido na Itália, em Firenze, na Toscana. Tendo nascido e vivido no centro histórico de Firenze, chamado pelos moradores de Quartiere 1, pude observar, primeiro com os olhos de uma criança, depois de um adolescente e, por fim, de um adulto, a evolução da minha cidade. E agora, vivendo no exterior, consigo perceber ainda mais as mudanças, tanto positivas quanto negativas.
Pois bem, desta vez não vou contar ou mostrar as belezas da Toscana ou da dolce vita italiana, mas sim os aspectos que, na minha opinião, são negativos e representam uma piora da minha belíssima e amada cidade: Firenze.
Firenze, nos anos 80 e 90, era considerada “o salão elegante da Itália”. Uma pequena joia, capital mundial do Renascimento italiano.
O meu bairro, o Quartiere 1, centro histórico, com sua principal artéria, a Via Nazionale, pulsava com lojas e botteghe. Sapateiros, açougues, salumerias, lojas de roupas, lojas de lembranças, lojas de balanças, torrefações de café.
Lembro-me de quando era criança estamos nos anos 90 eu, minha mãe e meu irmão, sempre às quatro da tarde, íamos ao Mercato Centrale de San Lorenzo fazer as compras do dia. Eu já sentia os perfumes das especiarias, das frutas, da carne.
Debaixo dos pórticos havia uma lindíssima loja de bacalhau e peixe seco: tanques de mármore, paredes em mármore de Carrara, salames pendurados, cebolas, tomates. Dois irmãos atendiam qualquer tipo de gastronomia. Pouco mais à frente havia uma loja militar chamada Mitico, símbolo dos anos 80 e 90: você podia encontrar qualquer peça vintage. Ao lado, o alfaiate, o vendedor de cartas. Do outro lado, Marino Groovy com o seu slogan: “Despi a América para vocês”. Todas as melhores marcas de roupas americanas à nossa disposição.
Dentro do mercado, no térreo, havia açougues de aves e carnes, lampredotto, várias gastronomias, queijos. No segundo andar ficava o setor de frutas e verduras. Todos se conheciam, todos paravam para conversar um pouco.
Uma coisa eu me lembro mais do que todas: o silêncio. Era o nosso bairro, o bairro dos moradores. Poucos turistas.
Sou adolescente. A introdução da ZTL, a Zona de Tráfego Limitado, não trouxe benefícios: uma escolha desastrosa de várias administrações municipais. Muitos florentinos que moravam fora do centro histórico já não tinham mais acesso de carro. Começa o lento declínio do centro histórico de Firenze e, junto com ele, o da própria cidade.
Várias lojas na Via Nazionale fecham: a torrefação, a belíssima salumeria na esquina com a Via Guelfa, a loja de lembranças, a loja de bicicletas, o tapeceiro, a loja de caça e pesca.
Começam a surgir kebabs e as primeiras lojas multiétnicas. Os comerciantes que antes eu cumprimentava desaparecem de um dia para o outro. Não existem mais relações humanas. Você entra, compra e adeus.
As bancas do mercado passam a ser apenas voltadas aos turistas: antes vendiam roupas, agora bolsas de couro e pele, caríssimas.
As confeitarias históricas fecham, as pizzarias de fatia fecham. Uma lindíssima norcineria, onde eu sempre ia comer um sanduíche de presunto, também fecha, esmagada pela queda nas vendas. Sem moradores não se vende. Os turistas têm outros gostos, outras culturas. Os novos moradores possuem crenças religiosas, costumes e hábitos totalmente diferentes.
Muda a comida, mudam as relações humanas.
Sou adulto. O turismo, que antes era de elite, principalmente composto por americanos e japoneses, ao longo dos anos, com a possibilidade de viajar estendida a mais categorias sociais, produziu uma verdadeira invasão turística na minha cidade.
Lamento dizer isso, mas muitas vezes o chamado turismo “bate e volta” não trouxe benefícios, mas apenas sujeira e degradação.
Firenze, de salão tranquilo, tornou-se caótica. Firenze não consegue suportar esse volume, aliás, não suporta. Perdeu muitas das suas características. Roubos à luz do dia, sujeira, degradação, criminalidade.
Eu estava ausente havia quase dois anos. Pois bem, caros leitores, houve muitos momentos em que eu mal via a hora de ir embora dali. Momentos em que eu sentia que a cidade já não me pertencia mais. Eu era o turista, eu era aquele fora d’água.
Tenho muitas coisas para contar a vocês, mas não direi hoje. Vocês precisam me acompanhar nessa viagem, onde alternarei coisas negativas e positivas. Vou contar sobre minhas viagens gastronômicas e sobre a minha vida florentina.
Até o próximo capítulo.
Francesco Sibilla.

