Neste fim de semana, a Itália entrou oficialmente no clima do Carnaval. De norte a sul do país, começaram os primeiros desfiles, festas e celebrações que culminarão no Martedì Grasso (terça-feira, 17 de fevereiro), o momento mais intenso e simbolicamente importante do calendário carnavalesco italiano. De Veneza a Viareggio, passando por Putignano e por dezenas de cidades e vilarejos, o Carnaval volta a ocupar ruas e praças como um grande rito coletivo.
Para muitos brasileiros, inclusive descendentes de italianos, pode soar surpreendente descobrir que o Carnaval é, antes de tudo, uma festa de origem europeia e profundamente ligada à tradição católica. A própria palavra Carnevale vem da expressão latina carnem levare, que significa “retirar a carne”, em referência ao período de abstinência que se inicia com a Quaresma. Antes desse tempo de recolhimento religioso, a sociedade se concedia dias de excesso, inversão das regras e liberdade simbólica.
Foi justamente na Itália que essas celebrações se estruturaram ao longo dos séculos, ganhando formas organizadas, máscaras codificadas, personagens fixos e, mais tarde, os grandes desfiles com carros alegóricos. Cada região desenvolveu seu próprio modo de celebrar, refletindo história local, identidade cultural e até tensões sociais do presente.
Veneza representa talvez o Carnaval mais conhecido internacionalmente. Ali, a festa assume um caráter quase teatral. Máscaras refinadas, trajes inspirados no século XVIII e eventos espalhados pela cidade transformam canais e praças em cenários vivos. O Carnaval veneziano é menos barulhento e mais sugestivo, baseado no jogo de identidades, no anonimato e na encenação, mantendo um forte diálogo com a história e a arte da cidade.
Viareggio, na Toscana, oferece um Carnaval de natureza completamente diferente. Seus imensos carros alegóricos, construídos em papel machê, desfilam como verdadeiras esculturas móveis. A sátira é o coração da festa: política internacional, conflitos sociais, direitos civis e costumes contemporâneos ganham forma exagerada e crítica. É um Carnaval popular, direto, que transforma o riso em linguagem política.
No sul da Itália, o Carnaval de Putignano, na Puglia, é um dos mais antigos da Europa. Suas origens remontam à Idade Média, e até hoje conserva rituais específicos, como os versos satíricos declamados em dialeto e os desfiles que se estendem por semanas. Putignano simboliza a ligação profunda entre Carnaval, tradição local e identidade comunitária, mostrando como a festa não é apenas espetáculo, mas também memória coletiva.
Além desses grandes nomes, o Carnaval é celebrado em inúmeras cidades italianas, cada uma com características próprias. Há festas alpinas, carnavais históricos em pequenas vilas, desfiles costeiros e celebrações populares que misturam dialetos, música, gastronomia e crítica social. Essa diversidade reflete uma característica essencial da Itália: cada território possui sua própria história, linguagem e forma de expressão.
Foi essa tradição que atravessou o oceano e encontrou no Brasil um novo espaço para se reinventar. O Carnaval brasileiro ganhou ritmo, escala e identidade próprias, mas manteve elementos fundamentais já desenvolvidos da Europa: os desfiles organizados, os carros alegóricos, a narrativa visual e a ideia de contar histórias por meio da festa.
Hoje, ao acompanhar o início do Carnaval na Itália, o público brasileiro pode enxergar essa celebração sob uma nova perspectiva. Mais do que fantasia e diversão, o Carnaval italiano é um elo entre religião, cultura e sociedade, um espaço onde o passado dialoga com o presente e onde cada cidade conta, à sua maneira, quem é e como enxerga o mundo.
O Carnaval 2026 começa na Itália que (talvez você não saiba) é onde tudo começou

