Existe um lugar em Roma onde a História não está pendurada nas paredes, mas corre entre os dedos. Um lugar onde o poder, antes de ser proclamado, foi escrito. Onde papas, reis, presidentes e chefes de Estado confiaram sua imagem a um objeto pequeno, aparentemente efêmero, mas carregado de significado: o cartão de visita. No bairro de Trevi, a poucos passos da fonte mais famosa do mundo, a Antica Stamperia Trevi continua fazendo o que faz desde 1780: dar forma, peso e dignidade ao papel.
Aqui, a cartotécnica não é um serviço, é uma linguagem. Uma arte silenciosa que atravessa os séculos sem se curvar às modas. Fundada nove anos antes da Revolução Francesa, quando a Europa estava prestes a ser reescrita, a tipografia é hoje a mais antiga da Europa ainda em atividade no mesmo endereço. Assistiu à queda de tronos, à mudança de regimes, ao nascimento de repúblicas. Sobreviveu ao Estado Pontifício, ao Reino da Itália, à República. E fez isso mantendo intacto seu princípio essencial: o culto do “belo e bem-feito”.
Entrar na Stamperia Trevi é compreender que uma folha de papel pode dizer muito mais do que parece. Cartões de visita, convites, papéis timbrados, correspondências oficiais: cada trabalho nasce de um estudo minucioso dos materiais, das gramaturas, das fibras e das superfícies. Aqui, o papel não é um suporte neutro, mas uma matéria viva. As técnicas são as de antigamente: gravação manual, buril, relevo, repuxo. Gestos lentos e precisos, fruto de experiência e memória.
A guardar esse patrimônio está Sergio Franci, proprietário da tipografia e vice-presidente da Associação das Botteghe Storiche de Roma. Seu arquivo é um cofre de documentos, registros e provas de impressão que contam mais de dois séculos da história italiana. As primeiras evidências documentais seguras datam de 1871, logo após o fim do Estado Pontifício. Mas a alma da tipografia é mais antiga, profundamente ligada a uma Roma que ainda não se imaginava capital da Itália.
A Stamperia Trevi trabalhou para papas, reis, rainhas, nobres, ministros, presidentes da República e do Conselho. Para grandes instituições e para personalidades que marcaram seu tempo. “Trabalhamos e continuamos trabalhando para homens e mulheres que fizeram a História”, afirma Franci com um orgulho contido, quase diplomático.
Porque o cartão de visita nunca foi um detalhe. É identidade. “É um objeto que fala por nós quando não estamos presentes”, explica Franci. Conta quem somos e como queremos ser percebidos. Não é por acaso que, na cultura japonesa, ele é entregue com as duas mãos, em sinal de respeito. Na Stamperia Trevi, essa consciência existe há séculos.
Hoje, porém, essa excelência vive sob ameaça. Aluguéis insustentáveis, pressão comercial e a substituição de botteghe históricas por atividades mais lucrativas colocam em risco lugares como este. Não é apenas uma questão econômica, mas cultural. A Stamperia Trevi demonstra como artesanato, arte e comunicação de alto nível fazem parte da imagem de Roma. Por isso, defende Franci, é urgente uma lei de proteção às botteghe storiche.
Em um mundo dominado pela velocidade e pelo digital, a Antica Stamperia Trevi continua lembrando que o papel tem peso, som e memória. E que, às vezes, a História também passa por ali: por uma folha gravada à mão, pensada para durar mais do que quem a assina.
Serviços:
Antica Stamperia Trevi
Via di San Vincenzo, 12A
Centro Histórico bairro Trevi
00187 Roma Itália


