A vida cultural da Nápoles do período espanhol volta ao centro das atenções com a nova exposição das Gallerie d’Italia, que reabre um capítulo fascinante e pouco explorado da história: o protagonismo feminino no Seiscentos napolitano. A mostra, intitulada “Donne nella Napoli spagnola. Un altro Seicento”, pode ser visitada até 22 de março de 2026 e apresenta um panorama vibrante de artistas, nobres, intelectuais, artesãs e figuras espetaculares que moldaram a vida cultural da cidade.
O percurso expositivo reúne 69 obras, entre pinturas, desenhos, manuscritos e esculturas provenientes de museus italianos e internacionais. Entre os destaques estão raridades de Artemisia Gentileschi, exibidas pela primeira vez na Itália, vindas de Boston, Sarasota e Oslo. Mas o brilho não se limita a ela. A narrativa abre espaço para uma constelação de artistas que durante séculos permaneceram à margem da história oficial, como Lavinia Fontana, Fede Galizia, Giovanna Garzoni e a napolitana Diana Di Rosa, conhecida como Annella de’ Massimo, cuja vida trágica ecoa questões ainda atuais sobre violência e gênero.
Essas mulheres, impedidas pela lei de assinar contratos como os homens, encontraram maneiras engenhosas de registrar autoria: assinavam com fórmulas originais, inseriam datas visíveis e deixavam marcas que hoje permitem reconhecê-las plenamente. A mostra devolve suas vozes e revela a densidade de uma cidade que, no século XVII, era um dos centros artísticos mais ativos da Europa.
A exposição também reconstrói um episódio que incendiou a imaginação da época: a visita da Infanta Maria da Áustria, irmã de Felipe IV e rainha da Hungria, a Nápoles em 1630. Sua presença desencadeou festas, procissões e um fluxo extraordinário de artistas. O retrato realizado por Diego Velázquez, vindo do Museu do Prado, é exibido ao lado da célebre “mulher barbada” Maddalena Ventura, pintada por Jusepe de Ribera, uma das obras mais impactantes do século XVII.
O percurso inclui ainda duas figuras icônicas de liberdade e talento: a cantora Andreana Basile, estrela disputada por cortes italianas, e Giulia Di Caro, que desafiou as convenções ao transformar-se de meretriz em empresária teatral de sucesso. Entre as artes aplicadas, destacam-se as produções refinadas de Teresa Del Po e da ceroplasta Caterina De Julianis, testemunhos da habilidade técnica e sensibilidade estética das mulheres do período.
Com curadoria de Antonio Ernesto Denunzio, Raffaella Morselli, Giuseppe Porzio e Eve Straussman-Pflanzer, a mostra nasce de anos de pesquisa, restaurações e parcerias internacionais. Para as Gallerie d’Italia, trata-se de um projeto de resgate histórico e reconhecimento, que ilumina um patrimônio cultural até agora fragmentado.
Um Seiscentos diferente, vivo, plural e finalmente contado pelas suas protagonistas. E, graças a esta exposição, suas histórias deixam a sombra para ocupar o lugar que sempre mereceram.
Mostra sobre as mulheres esquecidas de Nápoles: arte, poder e talento no século XVII

