Imagine atravessar a entrada de um triclinium iluminado por lâmpadas de azeite perfumado, envolvido pelo aroma das especiarias e pelo murmúrio de servos enchendo taças de prata. “Jantar com Augusto e Nero” não é apenas um título evocativo: é um convite para descobrir, com curiosidade gastronômica e rigor histórico, o que realmente se comia e, sobretudo, como se comia na Roma imperial.
O sabor segundo Augusto: sobriedade e raízes camponesas
Durante o reinado de Augusto, o convivium refletia a herança austera da época republicana. As mesas ainda eram fiéis à simplicidade agrícola dos mos maiorum: legumes, verduras da horta, focaccias de espelta, queijos ovinos, peixes do Tibre e do Tirreno.
O príncipe preferia pratos equilibrados, sabores autênticos, preparações que valorizassem a matéria-prima mais do que a ostentação. O garum – a célebre pasta de peixe fermentado – era onipresente, mas usado com elegância.
Um jantar augustano falava de harmonia: nada de excessos, mas uma cozinha funcional ao bem-estar e à continuidade da tradição.
Nero e o triunfo da opulência
Com Nero, tudo muda. A estética do banquete transforma-se em espetáculo, maravilha, teatralidade. Ingredientes exóticos chegam de todo o Império: tâmaras e romãs do Oriente, pavões e faisões criados para a corte, vinhos perfumados de Falerno servidos em taças trabalhadas.
É a época dos pratos “monumentais”: lebres recheadas, peixes cozidos com especiarias raras, sobremesas ricas em mel, leite e frutas secas.
O objetivo já não é alimentar, mas surpreender: o banquete neroniano é uma declaração política de poder e abundância, um palco onde o sabor se torna instrumento de sedução.
Uma viagem entre dois mundos gastronômicos
Colocar Augusto e Nero lado a lado significa observar duas almas de Roma: de um lado, a raiz camponesa, pragmática e ritual; de outro, a Roma cosmopolita, fascinada pelo luxo, pela excepcionalidade e pela experiência sensorial total.
A comida, na Roma Antiga, era linguagem, status, identidade. E neste jantar imaginário – entre lentilhas temperadas com hortelã e piper longum, entre enguias assadas e tortas de carne aromatizadas com silphium – revive um mosaico de sabores que conta uma civilização inteira.
A Archeocucina conta a Roma Antiga: quando história e sabor ganham vida
Esta viagem pelo paladar encontra hoje uma nova forma graças ao projeto “A Archeocucina conta a Roma Antiga”, um laboratório gastronômico e divulgativo que une arqueologia, pesquisa histórica e cozinha experimental.
O objetivo é simples e ambicioso: reconstruir receitas, técnicas e gestos culinários do passado e transformá-los em experiências contemporâneas, acessíveis e envolventes.
A Archeocucina não se limita a replicar pratos antigos: ela os contextualiza, explica por que um alimento era precioso, como se cozinhava sem utensílios modernos, quais rituais sociais acompanhavam o banquete e como as escolhas alimentares refletiam a política, a economia e as influências culturais da Roma imperial.
E este percurso se abre oficialmente com um encontro extraordinário: o primeiro evento da série aconteceu em 21 de novembro, nos terraços do Coliseu, um lugar simbólico que serviu de cenário para uma experiência sensorial única, onde história, paisagem e gastronomia dialogaram de maneira inédita.
Degustar a história hoje
Redescobrir estas receitas não significa apenas reproduzir pratos antigos, mas compreender o contexto que os gerou: a rede de comércio do Mediterrâneo, a evolução dos gostos, o papel social do banquete. Projetos como A Archeocucina conta a Roma Antiga resgatam um patrimônio gastronômico muitas vezes esquecido, reinterpretando-o com sensibilidade contemporânea.
“Jantar com Augusto e Nero” transforma-se, assim, em um percurso cultural e culinário que nos lembra como, desde sempre, a comida é uma das formas mais poderosas de explorar a história e narrá-la através do paladar.

