Não nasce na academia, não depende de aplicativos e não promete resultados imediatos. É um gesto antigo, repetido há séculos, que une respiração, voz e comunidade. Hoje chamaríamos isso de “bem-estar mental”, mas por muito tempo foi apenas parte da vida cotidiana. Na Itália, esse hábito ainda existe, longe das grandes cidades, e é tão forte que foi reconhecido pela Unesco como patrimônio cultural imaterial da humanidade. É o canto em grupo. Mas não qualquer canto.
Quem pensa que cantar junto é apenas música perde o ponto central. O canto coletivo é uma prática que obriga o corpo a se sincronizar: a respiração se regula, a escuta se torna essencial, a atenção sai do indivíduo e vai para o coletivo. Não por acaso, hoje ele é estudado também fora dos conservatórios, em pesquisas sobre saúde mental e redução do estresse. Um coral ou uma prática vocal compartilhada pode se tornar um ritual regular que diminui o isolamento e dá uma nova forma à convivência.
Dentro desse contexto existe um hábito italiano que fez tudo isso muito antes da ciência começar a medi-lo. Ele nasce em uma cultura pastoral, é transmitido oralmente e continua vivo como gesto comunitário. Trata-se do canto a tenore.
Na Sardenha, sobretudo nas regiões do centro-norte da ilha, o canto a tenore não é espetáculo, é convivência. Os cantores se posicionam em um círculo muito próximo, quase compartilhando o mesmo espaço de respiração. As vozes são quatro: bassu, contra, mesu boche e boche. É esta última que entoa o texto, muitas vezes poético e em língua sarda; as outras três criam um acompanhamento profundo e gutural, que torna esse canto inconfundível.
A Unesco reconheceu o canto a tenore não apenas pela sua singularidade sonora, mas pelo seu valor identitário e pela transmissão entre gerações. Cada vilarejo tem seu estilo, seu ritmo, sua forma própria de cantar. Não existe um modelo único: existe uma tradição viva, que muda sem se perder.
Segundo a Comissão Nacional Italiana para a Unesco, o canto a tenore ainda acontece em contextos espontâneos, como bares chamados su zilleri, além de festas populares, cerimônias e momentos simbólicos como o carnaval da Barbagia. É ali que o canto continua cumprindo sua função original: manter as pessoas juntas.
A ciência está apenas chegando a conclusões que a tradição já conhecia. Estudos sobre canto coral mostram melhorias no bem-estar psicológico, na qualidade de vida e redução de estresse e ansiedade. O motivo é claro: cantar exige uma respiração profunda e coordenada, além de uma escuta constante do outro. Não é uma prática solitária. É relação.
O canto a tenore acrescenta a isso um valor cultural profundo. Ele não nasceu para “fazer bem”, mas para existir em comunidade. E talvez seja exatamente esse o ponto. Muitas práticas que hoje buscamos como ferramentas de bem-estar surgiram, originalmente, como formas de estar juntos.
Talvez o segredo não seja inventar algo novo, mas aprender a escutar melhor o que sempre esteve ali.

