Na Itália, a Epifania não é uma simples festa: é um mood, um estado de espírito, um delicado momento de transição entre a ilusão eterna das celebrações e a dura realidade do “é hora de voltar ao trabalho”.
O dia 6 de janeiro chega pontualmente como uma tia que aparece sem avisar, trazendo consigo seu carregamento simbólico de meias penduradas, doces suspeitos e carvão “doce, mas educativo”. Porque, no fundo, a Epifania é isso: ela te recompensa, mas também te julga. Você se comportou? Aqui está o chocolate. Foi levado demais? Calma, continua sendo chocolate, só que com uma lição moral embutida.
A protagonista indiscutível é ela, a Befana: idosa, independente, voa sozinha e não pede desculpas a ninguém. Um ícone feminino ante litteram que, em vez de desaparecer com a idade, vira tradição. Anti-aging? Nada disso. Na Itália, envelhecer bem significa entrar para o folclore.
A Epifania também cumpre uma função prática fundamental: desmontar o Natal sem culpa. As luzes de repente parecem fora de lugar, a árvore ganha um ar cansado e o panetone que sobrou é oficialmente promovido a café da manhã. É o dia em que o país inteiro respira fundo e diz: “Ok, chega de festas. Talvez.”
E então vem o ritual coletivo do retorno mental: as agendas reaparecem, os e-mails despertam da hibernação e alguém, com uma dose perigosa de ousadia, pronuncia a frase proibida: “Este ano vou entrar em forma”. Spoiler: mas não vai ser hoje.
Porque sim, a Epifania leva embora todas as festas, mas faz isso com elegância. Deixa um último gosto de açúcar nos lábios, um pouco de nostalgia e aquela sensação tipicamente italiana de que até o fim de algo, quando bem feito, pode parecer quase elegante.
E amanhã? Amanhã tudo recomeça. Mas com uma meia vazia a menos e uma desculpa a mais para comer o último pedaço de torrone!

