Em Roma, o café não é apenas uma bebida: é um gesto cotidiano, um ritual doméstico, um elemento de identidade. E enquanto o mercado global aposta em cápsulas cada vez mais sofisticadas, aromas assinados e máquinas de design hi-tech, na Capital resiste e vence a querida e velha moka.
Um ritual que tem cheiro de casa
A moka borbulha no fogão como uma voz familiar. É um som que, em Roma, atravessa gerações: das cozinhas dos bairros históricos como Trastevere e Garbatella até os prédios mais modernos da periferia. Não é apenas uma questão de sabor. É uma questão de tempo. A moka impõe uma espera breve, mas intensa: enche-se o filtro, nivela-se o café, rosqueia-se a cafeteira, acende-se o fogo. Aquele minuto e meio transforma-se em um espaço mental. Com a cápsula, ao contrário, o gesto se reduz a um clique. E para muitos romanos, esse clique é silencioso demais, rápido demais, quase impessoal.
Tradição contra praticidade?
As máquinas de cápsula conquistaram escritórios e casas de veraneio. São práticas, limpas, padronizadas. Mas justamente essa padronização, em uma cidade que faz da personalização uma arte – do “café macchiato frio no copo” ao “ristretto, mas nem tanto” parece um limite. A moka permite escolher a mistura, a intensidade, a quantidade de água. Há quem prefira a de três xícaras mesmo morando sozinho, quem a deixe mais tempo no fogo para um aroma mais intenso, quem jure que “o primeiro café não se bebe, se joga fora”. São micro-rituais que revelam uma cultura doméstica ainda muito forte.
Uma questão econômica (e cultural)
Há também uma questão concreta: o custo. Em tempos de incerteza econômica, a moka continua imbatível. O café moído rende mais e custa menos do que as cápsulas. E em uma cidade onde o bar continua sendo uma extensão da sala de estar, o consumo doméstico é complementar, não substitutivo. A cápsula é muitas vezes percebida como um hábito “moderno”, por vezes apressado. A moka, ao contrário, é memória: avós que a lavam sem detergente, pais que ensinam a dosagem perfeita, estudantes que a colocam na mala como o primeiro objeto indispensável.
Identidade romana, também na cozinha
Roma é uma cidade que muda lentamente. Acolhe as novidades, mas as filtra. Assim, enquanto as cápsulas avançam no mercado nacional, na Capital a moka continua ocupando um lugar central sobre o fogão. Porque o café, aqui, não é apenas cafeína: é conversa, pausa, teatralidade cotidiana. É um gesto que se transmite. E enquanto nas casas romanas se ouvir aquele borbulhar inconfundível, a moka não será apenas um utensílio. Será um símbolo.

