sáb. fev 28th, 2026

Dolomitas: não são montanhas, são um jeito de estar no mundo

As Dolomitas não se explicam. São atravessadas.
Elas não pedem para ser vistas: exigem tempo, silêncio, disposição para mudar o ritmo. Quem chega aqui entende rapidamente algo definitivo: essas montanhas não são um destino turístico, são uma experiência que reorganiza o olhar.

Elas ficam no nordeste da Itália, espalhadas entre o Vêneto, o Trentino-Alto Ádige e o Friuli Venezia Giulia. Mas dizer onde estão não é suficiente. As Dolomitas são diferentes das outras cadeias alpinas. Diferentes pela forma, pela cor, pela origem. A SOIUSA as divide em nove sistemas distintos: do Pelmo à Marmolada, das Pale di San Martino ao Puez-Odle, do Catinaccio ao Latemar, até as Dolomitas de Brenta. Nove territórios, uma única identidade.

Desde 2009 são Patrimônio Natural da UNESCO. Não apenas pela beleza, mas pela singularidade geológica. Aqui a montanha nasce do mar. Há 250 milhões de anos, conchas e corais se acumulavam em um mar tropical. O choque entre as placas africana e europeia elevou esses fundos marinhos até o céu. É por isso que a rocha é clara. É por isso que ao entardecer ela se inflama. A enrosadira não é um truque visual: é memória geológica em movimento.

Dino Buzzati, que conhecia essas montanhas como se conhece um rosto, já sabia: a verdadeira riqueza das Dolomitas é sua fragilidade. Exploradas sem critério, viram apenas pedra. Respeitadas, continuam sendo mundos.

Nesse cenário surgem vilas cuidadas com precisão quase teimosa: Ortisei, Corvara, Santa Cristina, Sappada. Lugares onde a madeira é estrutura, não decoração; onde os balcões floridos não são folclore; onde a montanha não é pano de fundo, mas presença cotidiana. Cortina d’Ampezzo, a mais famosa, tornou-se símbolo internacional em 1956, mas segue suspensa entre elegância e verticalidade.

E há os ícones. As Tre Cime di Lavaredo, que por si só justificam a viagem. A Marmolada, rainha silenciosa. O Civetta, o Monte Paterno, as Torri del Vajolet. E os mirantes: Sass Pordoi, Mastlé, Ciampedie. Varandas naturais onde o mundo reduz o volume.

As Dolomitas mudam completamente com as estações. No inverno, são disciplina, precisão, neve que absorve o som. Esqui alpino, cross-country, snowboard, mas também caminhadas lentas, trilhas com raquetes, paradas em refúgios. Aqui nasce o Dolomiti Superski: 1.200 quilômetros de pistas, o maior domínio esquiável da Itália. No verão, tornam-se respiração. Trilhas, escaladas, lagos imóveis como Braies, Carezza e Misurina. Caminhos que não exigem desempenho, mas atenção.

A gastronomia segue a mesma lógica: substância sem ostentação. Canederli, orzotto, sopas longas, speck, queijos de altitude. Pratos que não buscam leveza, mas equilíbrio. Vinhos, cervejas artesanais, grapas aromáticas que sabem a ervas e silêncio.

Às Dolomitas não se chega. A gente se aproxima. Devagar. Porque o caminho já faz parte da experiência. Seja qual for o meio escolhido, existe sempre um instante preciso uma curva, um túnel, uma mudança de luz em que você entende que está entrando em outro ritmo.

As Dolomitas não têm um grande aeroporto no coração do território. E talvez isso seja justo.
Chega-se por fora, pelas bordas, para então subir em direção ao interior.

Os aeroportos mais práticos são o de Veneza Marco Polo e o de Verona Villafranca. A partir dali, a viagem continua por terra: trem, carro, ônibus. Veneza abre o caminho para o Cadore, Cortina e as Dolomitas bellunesas. Verona é a porta natural para o Trentino e o Alto Ádige.

É uma aproximação gradual: planície, colinas, vales. E então, sem aviso, as paredes claras que se erguem verticais diante dos olhos.

De trem: entrar na paisagem sem dirigir

O trem é a forma mais elegante de chegar. Não porque seja mais rápido, mas porque permite observar.

A Ferrovia do Brennero é o eixo principal: liga Verona a Bolzano, Bressanone, Vipiteno e ao Passo do Brennero. Descer em Bolzano ou Bressanone significa já estar dentro do universo dolomítico.

No lado trentino, Trento e Rovereto são pontos-chave para alcançar o Val di Fassa, o Val di Fiemme, o Val di Non e o Val di Sole. A nordeste, as linhas regionais seguem até Brunico, San Candido e até além da fronteira, rumo a Lienz.

O trem deixa você no fundo do vale. A partir daí, ônibus e teleféricos fazem o resto.

De carro: a viagem que vira narrativa

Chegar de carro é uma escolha emocional.
Porque as Dolomitas se revelam curva após curva.

A autoestrada A22 do Brennero atravessa o Trentino-Alto Ádige de sul a norte e é a espinha dorsal para quem chega da Itália ou do norte da Europa. Para as Dolomitas bellunesas, o acesso natural é pela A27 Veneza–Belluno.

Depois começam as estradas de verdade: passos, curvas fechadas, vales. Passo Pordoi, Sella, Falzarego, Gardena. Cada subida muda o ponto de vista. Cada descida é uma nova promessa.

Circular sem carro: a montanha que se respeita

As Dolomitas estão entre os territórios alpinos mais atentos à sustentabilidade. Aqui, o carro não é uma necessidade, mas uma opção.

No Alto Ádige, a Mobilcard permite viajar livremente em trens regionais, ônibus e algumas telecabines. No Trentino, a Guest Card segue o mesmo princípio: deslocar-se sem deixar rastros desnecessários.

Ônibus pontuais, sistemas de transporte integrados, conexões pensadas para reduzir o tráfego. É outra forma de viver a montanha: menos ruído, mais escuta.

Qualquer que seja o meio, há um momento em que você percebe que chegou de verdade.
Não quando estaciona. Não quando desce do trem.
Mas quando para de olhar o relógio.

As Dolomitas não têm pressa.
Elas esperam.

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