sáb. jan 17th, 2026

Do forno italiano às mesas brasileiras: World Pizza Day e uma paixão sem fronteiras

Existe um fio invisível que nasce em Nápoles, atravessa o Atlântico e chega, quente, às mesas brasileiras. Um fio feito de farinha, água, fermento e identidade. A pizza. Não apenas um prato, mas uma linguagem universal, um ritual coletivo, uma economia viva. Enquanto a Itália a protege como patrimônio cultural e gesto artesanal, o Brasil a transforma em hábito diário, fenômeno urbano, paixão de massa. Dois mundos distintos, unidos pela mesma mordida.

No Brasil, pizza não é ocasião especial. É rotina. Está no meio da semana, no fim do expediente, no domingo à noite, no aplicativo aberto sem pensar. Os números não mentem e ajudam a entender essa relação quase visceral: mais de 2,5 milhões de pizzas produzidas por dia, 1.752 por minuto. Em 2025, foi a terceira categoria mais pedida no iFood, com 92 milhões de pedidos. Um retrato claro de um país jovem, urbano e digital, onde o delivery deixou de ser alternativa para se tornar extensão natural da cozinha. Redes como a Pizza Prime, hoje a maior do Brasil com mais de 80 unidades espalhadas por 11 estados, entregam mais de 200 mil pizzas por mês. Aqui, a pizza é velocidade, escala, logística, eficiência. Come-se rápido, compartilha-se muito, personaliza-se tudo.

Na Itália, o tempo corre diferente. Tudo começa em Nápoles, nos bairros populares, quando a pizza era comida simples, criada para alimentar famílias com poucos recursos. Massa, tomate, queijo e forno. Um gesto cotidiano que, sem alarde, virou símbolo nacional. Hoje, o país assa cerca de 8 milhões de pizzas por dia, quase 3 bilhões por ano. O faturamento direto gira em torno de 15 bilhões de euros, mas o impacto econômico total ultrapassa os 30 bilhões. Ainda assim, a pizza italiana permanece profundamente ligada ao artesanato, ao forno, à mão, ao pizzaiolo.

Não é por acaso que o World Pizza Day é celebrado em 17 de janeiro. A data homenageia Santo Antônio Abade, padroeiro dos pizzaiolos, e ganhou força global após 2017, quando a arte do pizzaiolo napolitano foi reconhecida pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade. Na Itália, não se consome pizza: cultua-se a pizza.

Roma, em especial, se tornou nos últimos anos um dos grandes laboratórios contemporâneos desse culto. Uma cidade que nunca teve medo de reinterpretar tradições passou a usar a pizza como território de identidade, pesquisa e linguagem pessoal. No World Pizza Day 2026, três pizzerias da capital italiana traduzem essa evolução com pizzas autorais que contam histórias.

Na Avenida Calò, em Viale Pinturicchio 38/40/42, a pizza se move como narrativa sazonal. Francesco Calò constrói um discurso em que o impasto é protagonista absoluto. Sua criação especial, “Canto di Bruma”, não busca impacto visual nem excessos. Busca profundidade. Cervo brasato ao zimbro, purê de pastinaca e batata defumada, espuma de noz com manteiga noisette, trufa negra e sal Maldon se encontram sobre um impasto de fermentação indireta, 24 a 48 horas, hidratação de 78%, feito com a “Farina Intensa”, blend desenvolvido pelo próprio Calò. É uma pizza que fala baixo, mas permanece. Uma pizza que não tenta ser cozinha, mas dialoga com ela sem perder sua alma.

Poucos quilômetros adiante, em Via Antonio Pacinotti 83, o Spiazzo trabalha a pizza como manifesto contemporâneo. A criação “Confine”, assinada por Alessio Mattaccini, nasce do impasto “Spiazzante”, estendido como uma napolitana, mas mais crocante, com mais de 48 horas de fermentação. Sobre essa base, uma narrativa de terra e profundidade: creme de abóbora assada com missô branco, pancetta de Porco Nero dos Nebrodi cozida lentamente, radicchio tardivo braseado, fior di latte e um fundo reduzido da própria carne. É uma pizza que não quer surpreender, mas convencer. Que não grita inovação, mas a sustenta com técnica e equilíbrio.

Já no Baccio e i Gradini, em Via della Piramide Cestia 25, a Margherita se transforma em memória. Giovanni Lombardi parte de um disco de massa fermentado por 36 horas para resgatar o sabor do tomate assado nos fornos dos antigos padeiros. Uma crema de datterino assada com azeite, açúcar, sal e zest de cítricos cria uma base doce e levemente defumada. Fora do forno, stracciatella de Andria e um coulis de manjericão completam uma pizza que não é apenas clássica: é emocional. Cada mordida carrega infância, forno, lembrança.

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, o Brasil observa, absorve e vai além. Aqui, a pizza é naturalmente fusion. Pode ser doce, extrema, híbrida. Pode levar chocolate, frutas, ingredientes improváveis. Pode nascer de uma impressora 3D, como em projetos experimentais financiados pela NASA, ou alcançar preços quase míticos, como a pizza Louis XIII criada na Itália, avaliada em cerca de 60 mil reais. No Brasil, tudo isso convive sem conflito. A pizza aceita tudo porque pertence a todos.

E talvez seja exatamente aí que mora a diferença fundamental entre Itália e Brasil. Na Itália, a pizza é rito, patrimônio, identidade protegida. No Brasil, é liberdade, volume, criatividade cotidiana. Um país preserva, o outro expande. Um desacelera, o outro acelera. Não há disputa. Há complementaridade.

A pizza continua atravessando oceanos porque é simples o suficiente para ser universal e profunda o bastante para contar a história de cada lugar onde chega. Entre Nápoles, Roma e São Paulo, entre o forno a lenha e o aplicativo aberto no celular, ela segue sendo o mesmo gesto essencial: dividir, compartilhar, pertencer.

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *