Roma fica para trás pouco depois das seis da manhã, quando a estação ainda vive entre luzes artificiais e silêncios interrompidos. O trem parte com suavidade, quase em respeito à cidade que desperta lentamente. À frente, pouco menos de quatro horas de viagem, um tempo que existe no relógio, mas que logo começa a se dissolver na paisagem.
Nos primeiros quarenta minutos, o Lácio se estende calmo, ainda marcado pela umidade da noite. O amanhecer se reflete nos vidros da janela, misturando campos, trilhos e pensamentos recém-acordados. O café chega quando o trem já encontrou seu ritmo, e ali começa, de fato, o percurso.
A Úmbria surge quando pouco mais de meia hora ficou para trás. Discreta, quase silenciosa, feita de colinas suaves e povoados que parecem observar a passagem com uma serenidade antiga. Apesar da velocidade, o tempo começa a desacelerar por dentro, como se o movimento externo convidasse à pausa interior.
Quase duas horas depois da partida, a Toscana entra em cena. O cenário muda de tom: vinhedos desenham linhas precisas, casas de pedra resistem ao tempo, colinas se sucedem como quadros cuidadosamente compostos. O trem avança rápido, mas o olhar insiste em ficar, tentando prolongar cada imagem por alguns segundos a mais.
Quando a viagem ultrapassa as duas horas e meia, a paisagem se abre. A planície surge ampla, contínua, quase hipnótica. Campos extensos, canais que refletem um céu já firme, um ritmo constante que transforma os minutos em uma linha contínua, sem rupturas. Aqui, o tempo deixa de ser contagem e vira sensação.
Nos últimos vinte minutos, algo muda. Talvez seja o trem que desacelera levemente, talvez sejamos nós. Depois de quase quatro horas, o percurso começa a se fechar, como um pensamento que encontra seu ponto final natural.
E então, a água.
Veneza aparece no instante em que o tempo medido perde relevância. Ao descer do trem, a terra termina. Os trilhos dão lugar à laguna, os sons se transformam, o ar fica mais leve. As horas percorridas são imediatamente absorvidas por uma cidade que não se move pela pressa, mas pela espera.
A viagem de Roma a Veneza não é apenas uma distância vencida em menos de quatro horas. É uma transição silenciosa dentro de um movimento veloz, um deslocamento que pede menos atenção ao relógio e mais disponibilidade para olhar.
Porque, no trem, o tempo não se perde, ele se transforma.


