Das grandes cidades ao interior: a nova geografia da Itália em números

É uma mudança que chama atenção não apenas pelo volume, mas pelo contraste. Milão, por exemplo, continua atraindo pessoas da Itália e do exterior, mas ao mesmo tempo perde moradores para sua própria região metropolitana. A cidade permanece magnética — para estudar, trabalhar e chegar de outros países — mas morar dentro dela se tornou outra questão.
Segundo dados do Istat, repercutidos pela imprensa, os 106 municípios italianos que são capitais de província ou de cidade metropolitana perderam, entre 2023 e 2025, quase 97 mil moradores para outros territórios do país.
O movimento não significa que as grandes cidades italianas estejam simplesmente “esvaziando”. O que os dados mostram é uma transformação mais complexa: as pessoas continuam chegando, mas muitas escolhem morar alguns quilômetros além dos limites municipais. A tendência acompanha uma característica mais ampla da mobilidade italiana: em 2025, quase 60% das mudanças de residência entre municípios ocorreram dentro da mesma província, sinal de que boa parte dos deslocamentos acontece em distâncias curtas.
Nenhum caso ilustra melhor esse paradoxo do que Milão. No período de 2023 a 2025, a capital econômica italiana registrou o pior saldo de mobilidade interna entre os 106 municípios analisados: 22.099 moradores a menos. O dado, porém, não quer dizer que Milão tenha perdido sua capacidade de atração. No mesmo período, a cidade recebeu 18.824 pessoas vindas de outras regiões italianas e teve um saldo positivo de 45.662 residentes nas relações com o exterior. Ou seja: Milão continua sendo uma porta de entrada para estudantes, trabalhadores e estrangeiros, mas parte de quem vive ou chega à cidade acaba procurando uma casa em municípios vizinhos.
É uma espécie de nova geografia urbana: trabalha-se, estuda-se, circula-se e consome-se em Milão, mas dorme-se em Monza, Sesto San Giovanni, Cinisello Balsamo ou em outras cidades da região metropolitana.
Em Roma, o movimento é menos intenso, mas aponta na mesma direção. Entre 2023 e 2025, o município teve saldo negativo de 3.784 moradores na mobilidade interna, com uma perda de 12.806 pessoas para outros municípios da própria província. Ao mesmo tempo, a capital italiana registrou saldo positivo de 38.718 residentes nas migrações internacionais, o que ajudou a manter o balanço migratório geral no azul, com 34.934 pessoas a mais no período.
Os dados nacionais do Istat ajudam a contextualizar esse movimento. Em 2025, houve 1,455 milhão de transferências de residência entre municípios italianos, 5,1% a mais que no ano anterior. A mobilidade voltou a crescer, enquanto o Centro-Norte continuou a registrar saldo positivo nas trocas internas, ao contrário do Sul do país. O aspecto talvez mais curioso da fotografia demográfica é o papel da imigração internacional.
Nos 106 municípios analisados, enquanto a mobilidade interna resultou em um saldo negativo de 56.402 residentes no triênio, as relações com o exterior produziram um saldo positivo de 328.363 pessoas. No fim das contas, o saldo migratório total das cidades ficou positivo em 271.961 moradores. Em outras palavras, muitas cidades italianas perdem residentes para seus próprios arredores, mas recuperam — e em vários casos superam essa perda — graças à chegada de pessoas do exterior.
O fenômeno se encaixa em uma tendência nacional. Em 2025, o saldo migratório da Itália com o exterior chegou a +296 mil pessoas, sustentado principalmente pela imigração de cidadãos estrangeiros. A explicação para essa mudança provavelmente está em uma combinação de fatores. O preço dos imóveis pesa, especialmente em cidades como Milão. Mas há também a busca por apartamentos maiores, áreas verdes e uma vida menos cara.
O trabalho remoto e os modelos híbridos também mudaram a relação entre casa e escritório. Para quem não precisa mais estar todos os dias no centro, morar a 20, 30 ou 40 quilômetros do local de trabalho pode representar uma economia significativa e, em muitos casos, uma casa maior pelo mesmo preço. A Itália das grandes cidades, portanto, não está necessariamente perdendo importância. Pelo contrário: Milão e Roma continuam atraindo pessoas, empregos e oportunidades. O que parece estar mudando é a fronteira da própria cidade.
A vida urbana, cada vez mais, ultrapassa os limites administrativos. Pode-se trabalhar em Milão, passar o sábado no centro, frequentar seus restaurantes e museus e, no fim do dia, voltar para uma cidade menor, onde o aluguel custa menos e o apartamento tem uma varanda ou um quarto a mais. É uma pequena mudança de endereço que, somada a dezenas de milhares de outras, começa a redesenhar o mapa da Itália. E talvez essa seja a maior curiosidade escondida nos números: as cidades continuam atraindo, mas nem sempre conseguem convencer as pessoas a ficar dentro delas.
