qui. jan 8th, 2026

Curvas, becos e memória: a ordem oculta das ruas de Roma 

Quem caminha pelo centro histórico de Roma percebe rapidamente uma sensação clara: as ruas não seguem uma ordem evidente. Curvas repentinas, cruzamentos oblíquos, becos que parecem ter surgido ao acaso. E, no entanto, os romanos eram célebres por seu rigor urbanístico, baseado no cardo e no decumano, o cruzamento perfeito que organizava cidades, acampamentos militares e colônias. Por que, então, Roma é uma exceção?

A resposta está na própria natureza de Roma. Diferentemente de muitas cidades romanas concebidas “no papel”, Roma não foi fundada como uma colônia planejada, mas cresceu por sucessivas estratificações. Seu núcleo mais antigo desenvolveu-se entre colinas, vales, cursos d’água e áreas pantanosas, em um território tudo menos regular. Antes mesmo de ser uma cidade, Roma era um conjunto de aldeias espalhadas pelas colinas, ligadas por caminhos que seguiam a conformação do terreno, não a geometria.

O sistema do cardo e do decumano funcionava perfeitamente nas cidades novas, fundadas pelos romanos na época republicana e imperial: basta pensar em Óstia, Timgad, Turim (a antiga Augusta Taurinorum). Nesses casos, o traçado urbano era imposto de cima, segundo um esquema racional, simbólico e militar. Roma, porém, já era antiga quando esse modelo foi codificado.

No coração da cidade, entre o Fórum Romano, o Palatino e o Capitólio, as ruas seguiram por séculos percursos funcionais: ligavam mercados, templos, casas e centros de poder. Não importava que fossem retas, mas que fossem úteis. Quando um traçado funcionava, não era eliminado, mas adaptado. Roma preferia incorporar, não substituir.

A isso soma-se outro fator decisivo: a continuidade habitacional. Roma nunca foi abandonada. Do mundo antigo à Idade Média, do Renascimento à era moderna, cada época construiu sobre a anterior, muitas vezes reutilizando muros, fundações e ruas. Os becos medievais às vezes seguem o perímetro de edifícios romanos desaparecidos; as curvas escondem ábsides de igrejas, restos de teatros, muros incorporados às casas. É uma cidade que se dobrou ao próprio passado, não que tentou endireitá-lo.

O resultado é um mapa irregular, porém coerente, no qual a aparente desordem revela uma lógica diferente: não a da grade, mas a do tempo. Roma não nega o cardo e o decumano; simplesmente os aplicou em outros lugares, onde podia recomeçar do zero. Em seu centro mais antigo, ao contrário, escolheu conservar cada vestígio, mesmo quando isso quebrava a simetria.

Por isso, as ruas do centro histórico não são um erro urbanístico, mas um arquivo a céu aberto. Cada mudança inesperada de direção é uma escolha feita séculos atrás; cada curva é um compromisso entre épocas diferentes. Em Roma, a ordem não está no espaço, mas na memória. E para compreendê-la, é preciso caminhar sem procurar linhas retas.

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