Existe um lugar, na região das Marche, onde a linha entre história e invenção é tão fina quanto a borda de um poço, e onde a loucura não é um defeito, mas uma forma refinada de inteligência popular. Corinaldo se apresenta assim: compacto, perfeitamente circular, protegido por muralhas que parecem desenhadas mais do que construídas, como se alguém tivesse decidido organizar até mesmo o caos humano.
Fundado por volta do ano 1000, durante o fenômeno do incastellamento, Corinaldo cresceu seguindo uma lógica quase hipnótica. As muralhas se sobrepõem em círculos concêntricos, o tijolo domina o olhar, enquanto do lado de fora um anel verde de tílias acompanha o perímetro do vilarejo como uma respiração lenta e contínua. No centro, silencioso e carregado de histórias, está o Poço da Polenta. Não um simples elemento urbano, mas o coração simbólico de uma lenda que marcou a identidade do lugar por séculos.
É dali que nasce o apelido que tornou Corinaldo conhecido muito além das fronteiras regionais: o vilarejo dos loucos. Não uma loucura clínica, nem uma zombaria ofensiva, mas uma ironia inteligente, afetuosa, profundamente enraizada no espírito das Marche. A versão mais contada fala de um camponês exausto pela subida da via Piaggia, carregando um saco de farinha de milho nas costas. Um instante de distração, o saco que cai no poço, as risadas do povo, e a frase amarga e resignada que ecoa: “Vocês são todos loucos em Corinaldo”. A partir daí, como tantas vezes acontece, a realidade deixa de ser crônica e vira mito.
Com o tempo, a lenda cresce, se transforma, se multiplica. Há quem diga que alguém tentou cozinhar polenta diretamente no poço, quem jure que linguiças e outros ingredientes foram jogados ali para enriquecer o prato, quem conte a história de um homem que, acreditando que seu burro estivesse possuído pelo diabo, o lançou nas profundezas. Versões diferentes, mesma essência: uma identidade coletiva construída sobre a capacidade de rir de si mesma. Ainda hoje, na primavera, Corinaldo celebra essa vocação com a Festa dei Matti, um carnaval fora de época que transforma o vilarejo em um teatro a céu aberto, onde a loucura vira fantasia, sátira e memória.
Mas se o poço representa a loucura coletiva, há uma história que fala de uma loucura mais íntima, doméstica, quase comovente. É a história de Scuretto. Um homem simples, sapateiro por profissão e amante fiel do bom vinho. Seu filho, emigrado para a América, enviava dinheiro regularmente para que ele construísse uma casa em Corinaldo, sonhando com um futuro de reencontros. Scuretto, porém, tinha outros planos. As tavernas do vilarejo o conheciam bem, e o dinheiro, pouco a pouco, desaparecia entre copos e conversas.
Quando o filho pediu uma prova concreta, uma fotografia da casa em construção, Scuretto não confessou. Inventou. Mandou erguer apenas a fachada, completa com porta e número cívico, posicionou-se à frente de uma janela que não dava para lugar nenhum e se deixou fotografar. A imagem atravessou o oceano, e o sonho continuou por mais algum tempo. Depois acabou. Aquela fachada permaneceu ali, suspensa entre verdade e engano, e hoje é um dos pontos mais visitados de Corinaldo. Não por sua beleza, mas por sua honestidade na mentira.
Caminhar por Corinaldo também é comer. Aqui, a cozinha não busca efeitos especiais, mas conforto e substância. A polenta, naturalmente, retorna como símbolo, acompanhada de molhos encorpados, carnes, cogumelos e linguiças. As tagliatelle feitas à mão, os vincisgrassi, a crescia folhada recheada com embutidos locais contam uma terra que sempre preferiu alimentar a impressionar. Tudo isso acompanhado por vinhos das Marche, diretos, francos, capazes de sustentar histórias longas e copos generosos, exatamente como Scuretto teria apreciado.
Chegar a Corinaldo é simples e, ao mesmo tempo, lento, como toda viagem que promete descobertas. O vilarejo é facilmente acessível tanto a partir do interior quanto da costa adriática, deixando para trás o ruído para entrar em uma dimensão mais contida, quase teatral. O carro é o meio ideal para apreciar as colinas suaves que conduzem ao centro histórico, enquanto o trem permite chegar às estações próximas, de onde se segue entre estradas tranquilas e paisagens abertas.
A melhor época para visitar é a primavera, quando as tílias perfumam o ar e a Festa dei Matti devolve ao vilarejo sua alma mais autêntica. O outono também é perfeito, com as cores quentes das colinas e uma gastronomia que se torna mais intensa e acolhedora. O verão valoriza o perfil cênico das muralhas, enquanto o inverno, silencioso e recolhido, é o momento ideal para ouvir as histórias sem distrações.
Em Corinaldo, a loucura nunca é excesso. É medida. É memória. É a forma mais elegante que esse vilarejo encontrou para permanecer vivo. E talvez, olhando bem, os verdadeiros loucos sejam aqueles que passam por ali sem parar.

