Imagine uma praça de Verona envolta na névoa do começo de fevereiro, com as primeiras pétalas de rosa dançando levemente sobre o calçamento. É ali, entre os muros da Casa de Julieta, que a Itália começa a palpitar pelo Dia dos Namorados, uma festa que não é apenas importada da América, mas enraizada em nosso solo como uma videira centenária. As origens remontam ao século III, em Terni, na Úmbria verde e mística: São Valentim, bispo e mártir cristão, celebrou em segredo o casamento entre a jovem Serena e o legionário Sabino, uma união de amor puro que desafiou o imperador Cláudio II, contrário aos matrimônios dos soldados por temer que isso enfraquecesse seu vigor em batalha. Decapitado em 14 de fevereiro de 270 d.C., Valentim deixou uma mensagem de despedida para sua carcereira, a cega Asteria: “Lembra-te de que vives para Deus e para o teu esposo”. Desse gesto nasceu a lenda do padroeiro dos apaixonados, santificado pela Igreja e entrelaçado ao rito pagão dos Lupercais, festas de fertilidade romanas que consagravam a primavera.
Hoje, na Itália, o Dia dos Namorados é um suspiro coletivo de ternura. Em Roma, os casais se aconchegam sob os lampiões da Ponte Milvio, onde os cadeados do amor inspirados em um romance de Moccia resistem ao tempo e aos vândalos, símbolos de promessas eternas. Nas confeitarias de Florença, os Baci Perugina derretidos em chocolate guardam bilhetinhos com frases sussurradas, herdeiros diretos daquelas antigas cartas de amor. E em Nápoles, entre becos perfumados de sfogliatelle, as avós contam aos netos como, no pós-guerra, um ramalhete de mimosas bastava para reacender um coração ferido pela miséria.
Mas é em Terni, a “Cidade do Amor”, que o sentimento se torna palpável: todo 14 de fevereiro, duas mil parejas se unem em um casamento coletivo na basílica gótica, sob os afrescos que narram a história do santo. Ali, entre lágrimas e sorrisos, a Itália redescobre que o amor não é um luxo efêmero, mas uma herança de coragem e fé. Em um mundo de likes fugazes, o Dia dos Namorados nos lembra: a origem de um beijo é eterna, como as colinas úmbrias que velam pelo nosso coração.

