qua. fev 4th, 2026

Brasil e Itália voltam a se cruzar em uma investigação que revela atividades da máfia



Laços econômicos legais, fluxos financeiros globais e crime organizado. É nesse espaço ambíguo que se insere o processo contra a Cosa Nostra, que voltou a colocar o Brasil no centro de uma investigação antimáfia conduzida pela Justiça italiana, noticiada por Palermo Today. A Promotoria de Palermo pediu penas severas para Giuseppe Calvaruso, apontado como chefe do mandamento mafioso de Pagliarelli, acusado de ter construído no Brasil um império econômico estimado em cerca de 500 milhões de euros.

De acordo com a acusação, tudo teria começado em outubro de 2016, quando uma mala contendo 600 mil euros em dinheiro vivo foi entregue em um hotel de Rimini. A partir desse capital inicial, Calvaruso — segundo os investigadores — teria iniciado uma série de investimentos no estado do Rio Grande do Norte, infiltrando-se em diversos setores da economia local por meio de empresários, profissionais liberais e testas de ferro considerados “insuspeitos”.

O dinheiro teria circulado por uma complexa rede de empresas e sociedades sediadas na Suíça, Alemanha, Hong Kong e Singapura, antes de retornar à Itália para alimentar os cofres da organização mafiosa. Parte desses recursos, sustenta o Ministério Público, teria sido transportada fisicamente entre a América do Sul e Palermo, com o uso de viagens aéreas frequentes. Entre os réus está uma mulher acusada de levar grandes quantias em espécie escondidas junto ao corpo durante os voos internacionais.

Calvaruso sempre negou as acusações. Quando foi preso pela última vez, em abril de 2021, no aeroporto de Punta Raisi, ao retornar do Brasil, afirmou ser “apenas um empresário que tenta trabalhar”. Ainda assim, a Promotoria solicitou uma pena de 14 anos de prisão para ele, além de condenações que variam entre 9 e 12 anos para outros acusados envolvidos no esquema.

O caso se insere em um contexto mais amplo de cooperação entre a Guardia di Finanza (a policia financeira), o Ministério Público italiano e autoridades brasileiras. Nos últimos anos, diversas operações conjuntas têm buscado mapear investimentos suspeitos, rastrear fluxos financeiros transnacionais e impedir que organizações mafiosas utilizem o Brasil como plataforma para lavagem de dinheiro ou reinvestimento de capitais ilícitos.

Essa colaboração bilateral tornou-se estratégica. O Brasil, com uma economia diversificada e integrada aos mercados globais, já apareceu em outras investigações como destino de recursos de origem criminosa europeia. Para a Itália, o intercâmbio de informações e o apoio das autoridades brasileiras são fundamentais para desmontar redes que operam além das fronteiras nacionais.

O processo contra Calvaruso revela como a criminalidade organizada se adapta à globalização, explorando brechas legais, estruturas societárias complexas e a distância geográfica. Ao mesmo tempo, reforça a importância da cooperação internacional entre Itália e Brasil no combate às máfias, uma batalha que hoje se trava não apenas nos tribunais, mas também no controle dos fluxos financeiros globais.

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