Existe um Vaticano que não aparece nos telejornais, que não surge nas transmissões ao vivo das missas papais nem nas fotos oficiais dos pontífices. É o Vaticano das famílias que, há gerações, trabalham além dos muros leoninos, sem alarde e sem títulos, mas com uma dedicação transmitida como um patrimônio de sangue e memória.
A vida delas corre paralela à solenidade das liturgias: discreta, silenciosa, escondida nos corredores e pátios que os turistas jamais visitarão. Há os guardas que conhecem de cor os passos dos Papas, os jardineiros que de pai para filho cuidam dos canteiros secretos dos Jardins Vaticanos, as costureiras que arrumam as costuras dos paramentos litúrgicos como se fossem roupas de família.
Muitos começaram ainda jovens, talvez acompanhando o pai no trabalho: “Meu avô era marceneiro nas oficinas de São Pedro, meu pai seguiu o mesmo caminho, e hoje eu cuido dos restauros”, conta um deles. É um fio que se entrelaça, mais ligado ao sentido de pertencimento do que à carreira.
A característica comum é a discrição. Não falam facilmente com jornalistas, não gostam de aparecer. O papel deles é como o das coxias do teatro: essencial, mas invisível. São as mãos que abrem as portas antes que o Papa atravesse o corredor, os olhos que vigiam para que a engrenagem milenar funcione sem falhas.
Em tempos de visibilidade extrema, essas famílias permanecem fiéis a um código antigo: trabalhar sem aparecer. E talvez esteja aí o segredo do vínculo delas com o Vaticano. Porque, enquanto as figuras públicas passam, elas ficam: guardiãs silenciosas de uma continuidade que atravessa gerações e que torna único o pequeno Estado no coração de Roma.

