Esqueça a chuva de Londres e os gramados de Hampton Court. A nova temporada de Bridgerton trocou as carruagens por gôndolas, inaugurando um baile de máscaras em Veneza que prova uma teoria: se uma série não foi para a Itália recentemente, ela está fazendo televisão errado.
Se Lady Whistledown precisava de tinta nova para sua pena, ela acabou de encontrar um tom vibrante de rosso italiano. A nova temporada de Bridgerton começa não com o tilintar de xícaras de chá em salões abafados de Londres, mas com o mistério e a maresia de uma praça em Veneza.
Sim, a família mais fértil da aristocracia britânica cruzou o continente. E o foco desta vez é Benedict Bridgerton, o irmão artista que, convenhamos, sempre teve uma alma mais “vinho tinto e massa fresca” do que “chá morno e biscoitos secos”.
O pontapé inicial não poderia ser mais simbólico. A série, conhecida por seus excessos deliciosos, figurinos exuberantes, intrigas sussurradas e romances que nascem no ritmo de uma valsa, abre espaço para uma história com aroma de conto de fadas. Benedict Bridgerton vive sua própria versão de Cinderela ao se encantar pela misteriosa Dama de Prata. Mas, sejamos honestos: embora o romance prometa suspiros, quem realmente domina a cena é o cenário.
Veneza não aparece apenas como pano de fundo turístico. Ela entra em cena com a segurança de quem sabe que será observada. O baile acontece em praça pública, dissolvendo as fronteiras entre nobreza e povo, realidade e fantasia. Máscaras escondem identidades, mas também liberam desejos. Afinal, em Veneza, todo mundo pode ser outra pessoa, ao menos por uma noite.
A mudança de cenário é uma jogada de mestre (e de marketing). No livro Um Perfeito Cavalheiro, o baile acontece na própria casa dos Bridgertons. Mas a Netflix, sagaz como é, percebeu que um meet-cute romântico tem 200% mais chance de sucesso se houver um canal veneziano ao fundo.
Nota da Sociedade: Dançar valsa em paralelepípedos venezianos exige um tornozelo forte e um senso de equilíbrio que nenhuma debutante londrina possui. Ponto para a misteriosa Dama de Prata se ela conseguir fugir correndo sem tropeçar em um pombo da Piazza San Marco.
Bridgerton não está sozinha nessa migração para o Mediterrâneo. Parece haver um memorando secreto circulando entre os showrunners de Hollywood: “Está sem ideias? Mande o elenco para a Itália e aumente a saturação da câmera.”
- The White Lotus: Fez da Sicília um personagem principal (e perigoso).
- Succession: Levou os Roys para a Toscana para brigar em cenários bonitos.
- Emily in Paris: Até a francesinha largou os croissants para andar de Vespa em Roma.
- Ripley: Transformou a costa amalfitana em um filme noir chiquérrimo.
O motivo é simples, a Itália oferece o que a Inglaterra (com todo respeito à Rainha Charlotte) não consegue: luz dourada, paixão desinibida e uma desculpa estética para o drama. Para Benedict, que é pintor, a Itália não é apenas um cenário; é o Grand Tour essencial para sua alma artística. A mudança geográfica justifica o seu estado de espírito: mais livre, mais boêmio e pronto para se apaixonar por alguém que não consta na lista de “aprovadas” da mamãe Violet.
Há também um toque bem-humorado nessa escolha. Afinal, se Londres já não comporta tantos segredos de família, nada mais justo do que exportar os dramas para outro país. E que país. A Itália surge quase como uma cúmplice da narrativa, oferecendo não só beleza, mas uma tradição cultural onde amor, arte e exagero caminham juntos há séculos.
No meio disso tudo, Benedict e sua Dama de Prata orbitam o baile como figuras encantadas. Eles importam, claro, mas quase competem com o brilho dos candelabros, o som distante da música e o mistério que só uma noite veneziana consegue sustentar. É a rara situação em que o romance aceita dividir os holofotes e sai ganhando.
No fim das contas, a nova temporada de Bridgerton confirma uma tendência irresistível: as séries entenderam que a Itália não é apenas cenário, é narrativa. E Veneza, com sua beleza teatral e sua vocação para o segredo, prova mais uma vez que, quando o assunto é drama bem vestido, ela nunca fica em segundo plano.

