ter. fev 24th, 2026

Anselm Kiefer as Alquimistas: a matéria do tempo, a transformação do olhar

Até 27 de setembro de 2026, o Palazzo Reale, em Milão, recebe As Alquimistas, uma das exposições mais intensas e meditadas dedicadas a Anselm Kiefer, mestre absoluto da arte contemporânea europeia. Não se trata de uma simples retrospectiva, mas de um atravessamento simbólico de seu universo: matéria, memória, mito e transformação se fundem em uma narrativa que exige tempo, silêncio e presença.

Entrar nas salas do Palazzo Reale significa aceitar um desafio. As obras de Kiefer não se oferecem ao olhar com leveza: são corpos densos, estratificados, marcados. Chumbo, cinza, palha, terra, livros queimados e superfícies corroídas constroem uma linguagem que se enraíza na história europeia, nas feridas do século XX, na tradição cabalística e na alquimia medieval. As Alquimistas é, antes de tudo, uma reflexão sobre a possibilidade da metamorfose: da arte, da matéria, do ser humano.

O título no feminino não é casual. A alquimia evocada por Kiefer não é domínio, mas processo; não é conquista, mas espera. As obras expostas parecem laboratórios abertos, lugares de passagem nos quais o tempo age como um reagente invisível. As superfícies pictóricas tornam-se campos de batalha e, ao mesmo tempo, de regeneração: aquilo que parece destruído sempre contém um resíduo de possibilidade.

O percurso expositivo dialoga de maneira poderosa com a arquitetura histórica do palácio. As grandes telas e as instalações monumentais não se impõem ao espaço elas o habitam. Cada sala é concebida como uma estação de uma viagem interior, na qual o visitante é chamado a confrontar símbolos recorrentes: livros como depósitos de saber e de cinza, torres instáveis, paisagens pós-apocalípticas que não falam de fim, mas de transição.

Em As Alquimistas, a história nunca é ilustrada, mas evocada. Kiefer não narra: estratifica. Suas obras funcionam como textos abertos, a serem lidos com o corpo antes mesmo do intelecto. É uma arte que não consola, mas acompanha. Que não explica, mas insiste.

Esta exposição em Milão se impõe como um dos acontecimentos culturais mais significativos de 2026, não apenas pela relevância do artista, mas por sua capacidade de dialogar com o presente. Em uma época que exige soluções rápidas, Kiefer propõe lentidão, complexidade, transformação profunda. Como a própria alquimia, afinal: uma arte que não promete ouro, mas consciência.

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