dom. jan 11th, 2026
Cibotoday

Há restaurantes que correm atrás do presente e outros que simplesmente continuam sendo o que sempre foram. Em Florença, fora dos roteiros gastronômicos mais óbvios, existe um lugar onde a cozinha nunca precisou se reinventar porque nunca deixou de ser verdadeira. É a Trattoria Briganti, no bairro popular de Rifredi, um daqueles endereços que não se descobrem por acaso: chega-se até lá porque alguém, antes de você, comeu bem e sentiu vontade de contar.

Sessenta e cinco anos não são apenas uma data. São uma vida inteira entre panelas, mesas próximas, conversas que se cruzam e hábitos que viram rituais. Desde 1960, na Piazza Giorgini, a família Briganti abre todos os dias a mesma porta, no mesmo espaço, com a mesma ideia de acolhimento. Os clientes mudam, os tempos passam, mas ali o tempo segue outro ritmo, mais humano, mais lento, mais compreensível.

Quando tudo começou, Rifredi estava longe da Florença turística. Era poeira, caminhões estacionados sem ordem, crianças jogando bola até escurecer. Nesse cenário simples, quase áspero, Gaetano Briganti e sua esposa Lorenzina decidiram apostar em uma cozinha feita de afeto e consistência. Não havia estratégia, apenas uma certeza: cozinhar como se come em casa. E talvez seja daí que venha toda a força desse lugar.

Durante os anos do crescimento econômico italiano, enquanto a cidade mudava, na Briganti construía-se uma fidelidade silenciosa. Primeiro aos domingos, depois cada vez mais. Não por moda, mas por necessidade. Porque existem pratos que não surpreendem, mas confortam. Que não querem impressionar, mas acompanhar. Aqui, a cozinha sempre foi de casa, e isso se sente logo ao entrar.

O prato símbolo, curiosamente, nunca foi escrito em lugar nenhum. O espaguetinho com tomate fresco nasceu quase por acaso, de madrugada, entre amigos. Tomate cru, massa fina, gesto simples. Alguém prova, outro pede, um jornalista escreve, e a história começa. Desde então, virou uma espécie de senha. Não está no cardápio, mas se você pedir, ele vem. Talvez esse seja o segredo: não é um prato para escolher, é um prato para descobrir.

Ao redor dele gira uma cozinha feita de memória afetiva. Escalopes ao limão que lembram almoços de domingo, omeletes como antigamente, caldos claros que levam direto à infância. Cada prato parece dizer a mesma coisa: aqui não se corre atrás das tendências, cuida-se do que sempre funcionou.

Hoje quem conduz essa herança é a terceira geração. Leonardo Briganti cresceu entre essas mesas, ouvindo histórias antes mesmo de saber contá-las. Herdou o respeito pela tradição e acrescentou seu olhar, sobretudo no universo do vinho. Garrafas escolhidas com cuidado, muitas fora da carta, compartilhadas mais por prazer do que por ostentação. Porque beber bem, aqui, também é um gesto de convivência.

No verão, a praça ganha vida sob as luzes do deque externo, a cozinha segue à vista, a pizza aparece apenas à noite, fina e crocante. Dentro, toalhas quadriculadas, mesas próximas, um burburinho que não incomoda, acolhe. É um dos poucos lugares onde ainda se pode comer tarde sem pressa, sem constrangimento, onde o fechamento não é um horário, mas um momento.

Em tempos de mudanças constantes, a Trattoria Briganti segue firme, sem nostalgia artificial. Não porque rejeite o presente, mas porque entendeu algo essencial: às vezes, a verdadeira modernidade é permanecer fiel ao que se é. Talvez por isso, depois de sessenta e cinco anos, quem entra pela primeira vez sente imediatamente que chegou ao lugar certo.

Serviço:

Endereço: Piazza Giorgini 12/r, Florença

Horário: aberta até 0h30

Cozinha: tradicional toscana e italiana

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