qua. jan 7th, 2026

A magia da Befana continua viva (não só pra crianças) na Itália com a tradição da ‘calza’


Na Itália, o começo de janeiro tem um sabor especial. Quando as luzes do Natal começam a se apagar e o ano ainda cheira a recomeço, chega a Befana. Uma figura antiga, quase mítica, que atravessa séculos montada em sua vassoura, entra pelas chaminés e deixa doces, pequenos presentes e um pouco de magia dentro das casas. Para muitos ítalo-descendentes no Brasil, a Befana é mais do que uma festa: é uma lembrança afetiva, um elo com a infância e com uma Itália feita de rituais simples e cheios de significado.

A tradição da Befana nasce da fusão entre crenças pagãs ligadas ao fim do ciclo agrícola e o imaginário cristão da Epifania, celebrada em 6 de janeiro. Segundo a lenda, os Reis Magos teriam convidado uma velha a acompanhá-los até o menino Jesus. Ela recusou, arrependeu-se e saiu à sua procura levando doces, que passou a distribuir às crianças pelo caminho. Daí vem a calza della Befana, a meia pendurada na noite anterior, esperando ser preenchida com balas, chocolates e, para os mais arteiros, um pouco de carvão doce.

Em 2026, essa tradição segue mais viva do que nunca, mas também mais cara. Segundo estimativas da Confcooperative, os italianos devem gastar cerca de 2,4 bilhões de euros com a Befana, entre viagens, presentes e, claro, as calzas. É um aumento em relação ao ano anterior, impulsionado tanto pelo turismo do feriado quanto pela força simbólica desse último momento das festas de inverno. Dois em cada três italianos devem comprar algum presente, ainda que pequeno, mantendo viva uma celebração que resiste ao tempo.

A forma de celebrar varia conforme a região. No Sul da Itália, dominam os brinquedos e cresce o interesse por produtos tecnológicos e interativos. No Centro, a tradição da calza recheada de doces segue firme, enquanto no Norte o vestuário ganha espaço, impulsionado pelos saldos de inverno. Também cresce o turismo da Epifania, com cerca de 8 milhões de italianos viajando, em sua maioria dentro do próprio país, aproveitando o chamado “ponte” do feriado.

Apesar das mudanças, a calza continua sendo o coração da festa, especialmente no Centro e no Mezzogiorno. Nessas regiões, mais de 70% das famílias mantêm o ritual, contra pouco mais de 60% no Norte. A despesa média gira em torno de 64 euros, mas a maioria prefere gastar menos, optando por pequenos gestos carregados de afeto. É uma festa que não busca excessos, mas proximidade.

O problema é que os preços subiram. O chocolate, protagonista absoluto da calza, ficou cerca de 9% mais caro, puxado pela alta histórica do cacau nos mercados internacionais. As calzas prontas, já recheadas e vendidas em supermercados, tiveram aumentos ainda maiores, chegando a 14%. Até o tradicional carvão doce encareceu. Diante disso, cresce a criatividade: o “faça você mesmo” ganha espaço, com famílias montando suas próprias calzas, escolhendo produtos com melhor custo-benefício e mais atenção à qualidade.

Mesmo assim, quase ninguém abre mão do ritual. Pesquisas mostram que a calza está presente em nove de cada dez lares italianos e que 70% dos adultos também trocam calzas entre si. Pais confessam provar as balas dos filhos, revivendo a infância por alguns instantes. Para muitos, é um momento de nostalgia doce, capaz de unir gerações ao redor de sabores simples: caramelos, chocolates, balas de goma, com a clássica preferência das crianças por sabores como morango e cola.

Em um tempo de incertezas e custos crescentes, a Befana segue fiel à sua essência. Não é um segundo Natal, nem uma festa de grandes presentes. É o último gesto das festas, íntimo e comunitário, feito de pequenas atenções e memórias compartilhadas. Para quem carrega a Itália no sobrenome ou no coração, a Befana continua sendo isso: uma velha simpática que, todos os anos, lembra que tradição também é uma forma de afeto.

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